Projetos e pessoas extraordinárias que estão a mudar o mundo


Navigation Menu+

DESCOBRINDO A IMPORTÂNCIA DA NOVA NARRATIVA

Written by Barbara Marx Hubbard      Mai 17, 2015

747150_59418292

Extraído do livro de Barbara Marx Hubbard Conscious Evolution.

barb-02

Era um dia frio de novembro de 1948 em Paris, durante o meu terceiro da faculdade na Bryn Mawr College, em que fui estudar para fora. Tinha-me afastado dos meus colegas de turma e entrado no Chez Rosalie, um pequeno café no Left Bank. Havia uma lareira acesa e o aroma de cigarros Gauloises pairava no ar.

 

Sentei-me a uma das mesas de madeira e pedi o almoço. Um jovem Americano alto e bonito abriu a porta, deixando entrar o frio. Só havia um lugar vago, em frente a mim. Sorri-lhe, automaticamente atraída por ele, e apresentei-me. Disse-me que se chamava Earl Hubbard. Ele era tão especialmente intenso que decidi fazer-lhe perguntas sobre questões que me acompanhavam desde que os Estados Unidos tinham lançado as bombas atómicas no Japão três anos antes, tinha eu 15 anos, em 1945. O meu horror tinha suscitado estas perguntas: Que proveito podemos tirar do nosso poderio científico e tecnológico? Qual é a missão da civilização Ocidental? Que visão positiva do futuro se coaduna com estes novos poderes?

 

Na minha busca por respostas, tinha lido material filosófico, de ficção científica e religiões do mundo. Mas, surpreendentemente, não encontrei senão pequenos vislumbres na ficção científica e na relevação mística. Os filósofos voltavam-se para uma idade de ouro, caso dos gregos; ou eram cíclicos, como no pensamento Oriental; ou estoicos, acreditando que não havia “nada de novo debaixo do Sol”, como disse o filósofo Romano Marco Aurélio; ou eram existencialistas, como Jean-Paul Sartre e Albert Camus, proclamando que o universo não tem um significado intrínseco, exceto o que cada indivíduo lhe dá. Finalmente, consultei os filósofos materialistas, que proclamavam que o universo não é senão matéria e está a degenerar inevitavelmente numa “morte térmica” resultante de um aumento da desordem ou da entropia devido à explosão das estrelas, com a qual toda a forma de vida morrerá. Embora alguns visionários e místicos prevejam a existência de vida para lá desta vida, para lá da morte, não encontrei visões positivas do futuro nas quais trabalhar nesta vida.

 

Com estas perguntas, tornei-me numa investigadora metafísica. A minha formação tinha sido agnóstica Judaica. Eu era uma tábua rasa espiritual – uma ardósia em branco sem crenças religiosas. Quando perguntei ao meu pai: “Qual é a nossa religião?”, ele respondeu: “Tu és Americana. Faz o teu melhor!” Mas em quê?, perguntava-me. O meu pai era uma espécie de Horatio Alger, um rapaz pobre do Brooklyn que se tinha tornado no rei do Mundo dos brinquedos. Ele dizia aos filhos que o sentido da vida era vencer, enriquecer. Mas eu conseguia acreditar nele. Sabia que, mesmo que toda a gente tivesse dinheiro, toda a gente seria frustrada como eu era, à procura do sentido da vida sem o encontrar. O conforto material por si só não podia ser o fim último da existência. Tinha crescido com tantos brinquedos que, aos seis anos, soube que mais brinquedos não me fariam, nem a mim, nem a ninguém, mais feliz.

 

Se eu não sabia qual era o verdadeiro sentido da vida, como poderia saber o sentido da minha vida? Senti uma necessidade de encontrar um significado e fiquei obcecada com estas questões, e lia literatura de todo o Mundo numa busca apaixonada pela resposta. Tinha feito as minhas questões a cada rapaz com quem saía. Qual é intuito dos nossos novos poderes? E qual é o nosso propósito? Eles não faziam ideia! Nunca tinha recebido uma boa resposta – até àquele dia em Paris.

 

Falámos descontraidamente um pedaço, e então ganhei coragem e fiz-lhe a minha pergunta: “Que proveito podemos tirar do nosso poderio científico e tecnológico?” Ele olhou para mim com os seus olhos cinza-esverdeados, deu uma longa passa no seu Gauloises e disse: “Sou artista. O meu propósito é perseguir uma nova imagem da Humanidade compatível com o nosso novo poder para moldar o futuro.”


Eu estava maravilhada. Era aquilo! A resposta à minha profunda questão existencial. Fique completamente rendida a ele. Vou casar contigo!, passou-me pela cabeça… e casei.

 barb-04

Estávamos sentados à pequena mesa naquela tarde, as castanhas assavam na lareira do café, e ele explicava que, quando uma cultura tem uma narrativa que toda a gente compreende, ela dá um rumo e um sentido a essa cultura. Quando as pessoas deixam de acreditar na narrativa, a cultura desintegra-se.

 

Por exemplo, quando as lendas de Homero – as narrativas de deuses e deusas, os heróis, a Guerra de Troia – foram escritas, nasceu a Grécia do século V. Com o passar do tempo, as lendas deixaram de ser críveis e emergiu uma nova narrativa. A narrativa era a do Evangelho, que falava de um homem cuja vida e promessa mudara o Mundo. Podemos nunca vir a saber ao certo da história da vida de Jesus, mas sabemos que a narrativa escrita criou uma fé e uma expetativa no coração do Homem e deu à luz uma nova cultura, uma cultura em que o indivíduo é sagrado, o reino dos céus está dentro de si, e a vida eterna é garantida pelo amor a Deus e ao próximo. Nasceu o Cristianismo, que, numa variedade de formas, dominou o mundo Ocidental por mais de mil anos. Mas gradualmente, com o advento da ciência e da democracia há uns trezentos anos, a interpretação literal do Evangelho deixou de ser possível para milhões de pessoas.

 

Na Renascimento, surgiu uma nova narrativa. Foi a narrativa do progresso alcançado através do conhecimento, do conhecimento acerca do funcionamento da Natureza e através da fruição da liberdade individual. Em 1486, Giovanni Pico Della Mirandola escreveu em Discurso sobre a Dignidade do Homem:

“Não te fizemos celeste nem terreno, nem mortal nem imortal, a fim de que tu, árbitro e soberano artífice de ti mesmo, te plasmasses e te informasses, na forma que tivesses seguramente escolhido.” O Earl descreveu a importância não só de haver uma nova narrativa, como também uma nova imagem do Homem. Ele explicou vividamente como a última grande imagem de um humano foi a da famosa escultura de Miguel Ângelo David. Ele avançou pela Arte Moderna, passando por Manet, Monet, Pissarro, Picasso e Jackson Pollock, culminando na arte do absurdo, imagens de degradação e desespero. Nós tínhamos perdido não só a nossa narrativa, como também a nossa autoimagem.

 

Desde o Renascimento até ao século XX que a narrativa da liberdade humana e do progresso nos tinha guiado. Mas nós, que testemunhámos o ambiente de tragédia da Paris do pós-Segunda Guerra Mundial, pudemos ver como o século XX foi o mais violento e cruel da história da Humanidade, com a morte de milhões de pessoas inocentes e os genocídios a serem perpetrados pelas nações mais sofisticadas do planeta Terra. A narrativa da esperança que tinha criado a Idade Moderna parecia absurda. Sabíamos que mais do mesmo uso de poder e conhecimento nos destruiria. No Mundo do pós-guerra, estivemos entre narrativas – e ainda estamos. Estamos a exercer poderes massivos; a consumir demasiados recursos e a gastar demasiado na defesa enquanto as nossas crianças passam fome e o nosso ambiente e os nossos sistemas sociais se deterioram. Muitos dizem que atingimos o ponto de “evolução ou extinção”. No meio da nossa confusão, contudo, uma nova narrativa de evolução está a emergir com potencial para nos incentivar à ação criativa.

 

O Earl e eu casámo-nos. Nas nossas “conversas de pequeno-almoço”, começámos a traçar em conjunto esta nova narrativa do nosso potencial para a evolução consciente. A narrativa está a surgir do saber conjugado de muitas disciplinas: científicas, históricas, psicológicas, ecológicas, sociais, espirituais e futurísticas. Mas ainda não encontrou a sua expressão artística ou popular. Descobrimos fragmentos em jornais, poemas, livros, palestras, conferências, seminários e redes de interessados. Vemos rasgos em filmes de ficção científica. Mas ainda não foram reunidos e contados com o poder necessário para fazer despertar o potencial social dentro de nós e para nos guiar ao longo do século XXI rumo a um futuro de possibilidades infinitas.

 

Compreender a nova narrativa evolutiva é a primeira ação crítica essencial para nos guiar – sem mais violência nem sofrimento – em direção a um futuro que faça jus ao nosso potencial pleno. Compreender isso dá-nos um sentido de direção, esperança e significado, fornecendo-nos uma nova autoimagem e visões positivas do futuro que escolhemos e em direção àquilo em que podemos utilizar os nossos poderes.

 

branco

Excerto do livro Conscious Evolution. Copyright © 2015 por Barbara Marx Hubbard. Publicado sob autorização da New World Library. www.NewWorldLibrary.com

 

 

VEJA TAMBÉM

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

IM Magazine reserves the right to approve all comments.
Ofensive comments will not be accepted.