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DESIGUALDADE: ASSUMIR RESPONSABILIDADES

     Out 30, 2014

Os aspetos não-matemáticos da desigualdade.

“Eu estive em Davos há alguns anos atrás e enquanto passava pelos portões, guardados pelos soldados Suíços com semiautomáticas, e entrava para o santuário interior pensei para comigo “Uau! Cheguei!” É permitida a entrada neste espaço apenas a duas mil e quinhentas pessoas e eu imaginei que fôssemos todos ter conversas verdadeiramente interessantes – algumas das pessoas mais poderosas, ricas e interessantes do mundo! No entanto, não é de todo assim que funciona. Existem áreas dentro de áreas, por sua vez, dentro de outras áreas e não se tem acesso a todas elas. Todos procuram desesperadamente e pateticamente falar com alguém mais importante enquanto que os seus alvos procuram evitá-los e falar com alguém mais importante ainda: É um tanque de tubarões. E andam todos miseráveis. Posteriormente falei com o meu brilhante amigo Indy sobre o sucedido e disse-lhe que era como se as pessoas que tinham criado a desigualdade no mundo não lhe tivessem escapado de todo – na verdade, é ainda pior nas elites e eles são todos infelizes. Ao que ele me respondeu “Yep – isso é porque a desigualdade é fragmentada.” Ela reproduz-se a si mesma em formas ainda mais extremas e danosas para todos. “ Simon Willis, Presidente da The Young Foundation.

 

Desigualdade. Aqui está uma palavra cujo significado é percetível de imediato. Desigualdade enquanto condição de se ser desigual; desigualdade como uma disparidade entre duas partes. Desigualdade, para bom entendedor, como a falta de igualdade. Ainda assim, por simples que o seu significado se possa afigurar, a desigualdade é também uma palavra, fenómeno, problema, de grande complexidade. Isto é, a desigualdade é uma temática que pode assumir várias frentes: poderá tratar-se de uma equação matemática, uma matéria de foro económico ou, ainda, uma questão social – perspetiva que vem ao encontro do que consideramos mais pertinente.

Ora, atente no seguinte: x + 3> 2. Logo de início sabemos que há um elemento de desigualdade nesta equação, representado pelo sinal “maior que”. Assim, sabemos que o resultado de x mais 3 é suposto ser superior a 2. E se substituíssemos as variáveis? E se em vez de se estabelecerem relações entre números aleatórios se estivessem a comparar os salários de um rico e de um pobre? Partilhariam eles uma relação de igualdade? E no que respeita ao género? X=Y. São x e y iguais, se x representar a mulher e y o homem?

 

Quer escolhamos relacionar números, dados estatísticos, ou pessoas de carne e osso é mais que evidente que a desigualdade existe e está por toda a parte. Porquê? Quem é que está a combater este problema? E, mais importante ainda, o que posso eu fazer – eu quanto membro comum da minha comunidade – para dizer “NÃO!” à desigualdade? Em primeiro lugar, pode começar por acabar de ler o presente artigo.

 

Existem vários indivíduos com as mesmas preocupações que as manifestadas acima. Existem também organizações cujo trabalho se dedica exclusivamente ao combate da desigualdade. Uma destas organizações é a The Young Foundation. Um destes indivíduos é Simon Willis. Se, porventura, não se encontra familiarizado com estes dois, há alguém que deve conhecer primeiro:

 

Michael Young foi um sociólogo, político e ativista social Britânico. No seu livro The Rise of the Meritocracy, entre outras coisas, cunhou a palavra meritocracia, que viria a ser mais tarde usada por inúmeros políticos – para seu grande descontentamento.

 

“Pode alguma coisa ser feita para contrariar esta sociedade cada vez mais polarizada e meritocrática? Ajudaria se o Sr. Blair riscasse a palavra do seu vocabulário ou, pelo menos, admitisse o seu aspeto negativo. Ajudaria ainda mais se ele e o Sr. Brown se afastassem da nova meritocracia, aumentando os impostos aos ricos e reforçando o governo local, de forma a envolver as pessoas e dando-lhes formação para a política nacional.” Disse Michael Young, responsável pelo manifesto do Trabalho (Labour’s Manifesto) para a eleição geral de 1945.

 

Young foi igualmente importante no que respeita à educação e Simon Willis defende que ele era obcecado com a desigualdade. “Reconhecido como um dos inovadores e visionários mais influentes e criativos”, foi responsável pela criação do Institute for Community Studies (ICS), o “grupo de reflexão urbano que combinava investigação académica e inovação social em termos práticos” que agora conhecemos por The Young Foundation, em honra ao empreendedor social.

Até agora sabemos que a data altura existiu um homem que veio a tornar-se no pilar e inspiração de uma organização, à qual foi atribuída o seu nome, dedicada ao combate da desigualdade nos dias que correm. Assim, a missão da The Young Foundation é, sem sombra de dúvida, combater o crescente problema social para o qual temos vindo a despertar a atenção do leitor.

 

O que importa discutir agora são as estratégias a usar nesse combate; as medidas a serem aplicadas; os recursos disponíveis. 

 

“Nós cultivamos o poder da inovação social para atacar as raízes da desigualdade”. Este é o mote que pode ser encontrado no site da Fundação, logo depois de um curto vídeo de Simon Willis, o seu presidente, onde fala sobre o seu trabalho e foco principal. É aqui que passamos a saber verdadeiramente como alterar as variáveis da equação… Para que possamos garantir que o salário do Sr. Silva é o mesmo que o do Sr. Brito Melo, para que possamos garantir que a Maria tem exatamente o mesmo tratamento que o João quando a concorrer para o mesmo posto de trabalho; para que possamos garantir que uma pequena aldeia indiana tenha acesso aos mesmos recursos que nós temos no Ocidente; para que possamos perceber o que falta ser feito para assegurar a igualdade de oportunidades para todos.

 

Contudo, a grande questão mantém-se: como? Ao contrário do que acontece na Matemática não há uma fórmula que possamos seguir, um cálculo que possamos fazer. Nós nos é possível simplesmente subtrair a desigualdade. Na vida real existe uma variedade de coisas que podemos fazer para combater esta problemática – e não tem nada que ver com o apontar do dedo e a atribuição de culpas.

 

A The Young Foundation, por exemplo, acredita que a desigualdade não pode ser separada ou dividida. Assim, a sua abordagem não é a de se focarem em apenas um tipo de desigualdade mas sim a de atacar a sua raiz estrutural e institucional – por outras palavras, as causas da desigualdade. Assim, se alguns escolhem culpabilizar a sociedade ou os pobres pela pobreza existente, a The Young Foundation escolhe providenciar as ferramentas para a combater.

 

Mas como pode isto ser alcançado em termos práticos? Através da inovação e da tecnologia, por exemplo. De acordo com Simon, a abordagem da The Young Foundation pode ser bastante diversificada. Poderá ser com a ajuda dos meios de comunicação social; através da implementação de um programa que promova a consciencialização; ou de alianças entre os setores público e privado, bem como com a sociedade civil. Independentemente do método escolhido, o propósito será sempre o de se alcançar uma “sociedade mais equilibrada e justa, onde cada indivíduo se possa sentir realizado nos seus próprios parâmetros” e o de “capacitar as pessoas para que possam levar vidas felizes e com sentido”, como afirmado online.

 

É ainda importante que se perceba que esperar pelos números e estatísticas é contraproducente. Isto serve apenas para prolongar o tempo de espera até que se tome uma atitude necessária, o que poderá resultar numa perda de perspetiva. “Alguns economistas gostariam de nos convencer de que somos todos egoístas, isolados e hedonistas, mas se reparar na forma como os seus amigos e familiares se comportam diariamente, isso simplesmente não é verdade”, explicou Simon. Os números não providenciam uma solução melhor que abordar diretamente as pessoas em questão.

 

Para cada um dos projetos da The Young Foundation, há uma equipa específica encarregue, bem como especialistas nas áreas do Design e da Comunicação. A Fundação conta ainda com o envolvimento e a interação da comunidade. Os especialistas que compõem essas equipas são de 5 núcleos fundamentais: Pesquisa; Inovação Aplicada; Empreendimentos de Risco; Construção de Movimentos; e Transnacional.

 

Better By Design e Realising Ambition são dois exemplos de projetos de Inovação Aplicada, uma vez que a Fundação possibilita a “inovação para um impacto em larga escala através de programas de design, da preparação de líderes” trabalhando com “os governos nacionais (…), autoridades locais, comissários de saúde e prestadores de serviços, organismos de financiamento, instituições de caridade, entre outros.” Better By Design, por exemplo, foi um projeto financiado pela BIG Scotland e o seu propósito é o de “apoiar um setor voluntário melhor e mais sustentável por toda a Escócia”, uma vez que os envolvidos acreditam que o setor voluntário desempenha um papel importante na redução da desigualdade. Realising Ambition, um programa de 25.000.000 libras financiado pela Big Lottery Fund, que investe em projetos que, por sua vez, ajudam crianças e jovens a evitar uma vida de crime e a alcançarem o seu potencial máximo, é também um exemplo de forças conjuntas entre diferentes parceiros. Assim, o papel principal da Fundação neste projeto é o de permitir que as pessoas reconheçam e desenvolvam as suas qualidades e pontos fortes, ajudando 21 organizações a exercerem com sucesso os seus trabalhos no sentido de alcançarem os melhores resultados possíveis para as crianças e os jovens, dando apoio e sugestões para melhorias.

 

Um outro aspeto interessante no que respeita ao trabalho desenvolvido pela Fundação remete para os Empreendimentos de Risco. Neste caso específico, a The Young Foundation apoia os esforços sociais dando conselhos e investindo financeiramente. O facto de estarem em contacto permanente com possíveis clientes e investidores é uma mais-valia para estes projetos, uma vez que lhes permite crescer de uma foram sustentável e satisfatória.

 

Seja como for, a comunidade é incitada a contatar a Fundação, a participar e a contribuir.

 

Portanto, desigualdade… A desigualdade é mais que um termo cunhado. É uma questão social. Existe. Existe e comporta consequências. Poderá ser uma questão de poder, prestígio, dinheiro, sexo, educação académica, linhagem, raça ou etnia, mas pode muito simplesmente ser encarada como uma sociedade dividida ente “os que têm” e “os que não têm” e cujas consequências são sentidas tanto pelos pobres como pelos ricos. A desigualdade é má para as pessoas, é má para a economia e é má para a sociedade – o que nos traz de volta às pessoas. Imagine um mundo onde a confiança e fé no próximo são tão reduzidas que é cada um por si. Isto pode ser uma narrativa interessante para um filme, porém pode ser bastante assustador e perigoso, se considerar o facto de que a crescente desigualdade que vivemos nos pode levar a este cenário – desta vez na vida real e não numa tela.

 

Alguns dedicam as suas vidas ao combate da desigualdade, sonhando com um mundo melhor. E mesmo que um mundo onde todos tenham as mesmas oportunidades e tratamento, um mundo onde a desigualdade não exista, seja uma utopia, esse é um mundo pelo qual vale a pena lutar.

 

“Nós acreditamos que muito pouco do futuro da sociedade é inevitável. Unidos pela humanidade que compartilhamos, acreditamos que coletivamente temos o poder de moldar as sociedades e comunidades em que queremos viver”, The Young Foundation.

 

Uma coisa é certa, este problema pode ser combatido com grande criatividade e de formas diversas. Young e Simon, contudo, deixam-nos algo em que pensar. Quando questionado sobre os nossos deveres enquanto cidadãos, Simon respondeu prontamente: “Eu ficaria bastante hesitante em definir quais os deveres das pessoas. Eu acredito que fazer algo para melhorar a sociedade ou ajudar quem precisa não é tanto um dever quanto um ingrediente da receita para uma vida melhor. Não é um sacrifício ou um dever, é um privilégio e um prazer e enriquece quem o fizer. ”

 

Talvez a resposta não seja substituir a desigualdade pela igualdade; talvez a resposta seja tão simples quanto nos preocuparmos em sermos respeitosamente iguais.

 

 

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