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A ODISSEIA DE UMA ATIVISTA DE ESTÓRIAS

Written by Mary-Alice Arthur      Out 3, 2017

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Há 10 anos que vivo como uma “nómada intencional”, respondendo ao chamamento das pessoas, do espaço e do meu trabalho para criar quer o plano de viagem quer a viagem da aprendizagem. Muitas vezes as pessoas perguntavam-me onde vivia e ficavam baralhadas – ou mesmo chocadas – quando dizia que não vivia senão onde a tinha a mala naquele momento. Conseguia ver a preocupação nos olhos de algumas – “Como é que consegue viver assim? Onde é que mora?” e noutras via um o rasgo assustador e estimulante da liberdade, o apelo para se livrarem de velhos hábitos e seguirem os seus corações pelo mundo.

 

Na verdade, este modo de vida tem sido um desafio e um dom. Todos os dias sou levada aos meus limites na aprendizagem. Às vezes, viajar continuadamente pode deixar-nos de rastos, às vezes é precisa tanta energia para cuidar das coisas essenciais da vida, às vezes sentimo-nos sós e é difícil. Por outro lado, temos o dom de testemunhar o sagrado, de ser acolhido numa nova aprendizagem com pessoas diferentes em situações diferentes, às vezes o que está além da superfície revela-se em novas formas simplesmente porque não nos recusamos a ver através das lentes de dado lugar ou dada cultura.

 

E em todo o lado há estórias. Esta vida de viajante fez-me de mim uma Caçadora de Estórias, que coleciona e vivencia estórias em cada viagem que mais tarde são necessárias no destino seguinte, por outras pessoas. Acho que estou a fazer a minha parte na tarefa de construirmos todos um mundo novo. Mas foi através deste processo natural de dar e receber que me apercebi de que sou uma Ativista de Estórias.

 

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Qualquer animal pode seguir as pegadas de outro. O que nos distingue dos outros animais é que seguir esse trilho e perguntar “O que aconteceu então?” As nossas mentes fabricam naturalmente estórias para nos ajudar a dar um sentido ao mundo e a lidar com ele. Elas dão cor à nossas experiências, recorremos a elas para aproveitarmos o que aprendemos, elas moldam o nosso caráter e o nosso comportamento. Quase não podemos viver sem elas. As estórias são o que nos torna mais humanos.

 

E elas são tão naturais aos nossos olhos que se tornam invisíveis.

 

Apaixonei-me por estórias quando ainda era muito jovem, lia debaixo dos lençóis à noite a horas impróprias. Mas não estive ciente do seu poder até ter despertado para elas num festival de storytelling na Nova Zelândia em 1992. Vi o efeito imediato de uma boa estória na plateia e isso fez-me partir à descoberta.

 

Tornei-me numa contadora de estórias por andar à caça na biblioteca e a devorar todas as estórias que encontrasse. Dei-me a conhecer como contadora de estórias. Fiz centenas de apresentações no meu trabalho. Depois, em 2013, descobri como o storytelling se tinha convertido numa ferramenta de liderança e conheci outros storytellers no ramo em todo o mundo. Incorporei o storytelling no meu trabalho de facilitação e na liderança participativa que estava a praticar na comunidade Art of Hosting.

 

Parecia-me que o storytelling era uma forma natural de fazer o meu trabalho, mas comecei a perguntar-me como é que esse trabalho se poderia desenvolver. Qual é a minha dança com a estória?

 

Depois de ouvir falar acerca do trabalho de Wade Davis (www.daviswade.com) em culturas em risco e da etnosfera em 2009, passei muito tempo a pensar acerca dos StoryFields. Cada um de nós é um StoryField – a interseção de todas as estórias que os outros contam sobre nós e que nós contamos acerca de nós próprios, assim como as estórias da nossa cultura, genealogia, tribo, etnia, crenças, lugar e experiência. Comecei a avaliar o poder do espaço e da geografia, e de como as estórias podem ajudar a escolher-te – como o meu sotaque original ajuda as pessoas a ter a certeza de algo sobre mim, embora eu não tenha vivido em dado país mais de metade da minha existência.

 

Comecei a aperceber-me de que as estórias têm um poder incrível – às vezes tão subtil que nem o conseguimos ver – como um peixe na água toma a água como garantida – e às vezes poder adquirido, porque o alimentamos. Pode ser verdade que não haja verdadeiras estórias de todo – nós contamos a estória da nossa própria perspetiva e há muitas perspetivas no mesmo evento espaciotemporal, e não uma única verdade – e isso pode sustentar a ideia de que todas as estórias são verdadeiras.

 

Em 2011, ouvi um colega meu Dinamarquês contar uma estória acerca do sistema de ensino Dinamarquês que começava com a bancarrota da Dinamarca em 1813. Não era a primeira que ele contava essa pequena estória, mas, tendo como pano de fundo o iminente colapso financeiro na Europa, a minha curiosidade ficou aguçada. Sabia simplesmente que era uma estória importante, não só para a Dinamarca, mas também para o mundo inteiro. Não era uma estória do país onde vivia, de uma cultura que conhecesse bem ou numa língua que eu entendesse, mas sabia que era minha responsabilidade fazer qualquer coisa. Era altura de aquela estória renascer.

 

Nos anos seguintes trabalhámos com a estória, convidando regularmente pessoas a ouvi-la, a ajudar a colher aprendizagens dela, a trabalhar com ela em diferentes situações. Descobrimos que tinha sido um período da História que o povo desconhecia, mas também tinha sido um período em que se formaram alguns dos valores fundamentais de quem somos hoje. A estória também forneceu a chave para tirar o máximo partido da crise, trabalhar em rede – às vezes chamada “rato de Troia”, em vez do sobejamente conhecido cavalo de Troia – e manter uma conversa o tempo suficiente para a transformação se tornar realidade.

 

Trabalhar nesta estória fez-me aperceber-me de que sou uma Ativista de Estórias. Sou alguém que ouve estórias que precisam de ser recuperadas, trabalhadas de novas formas ou transmutadas. Sou alguém que procura usar o poder das estórias com vista a uma mudança positiva. Como podem as nossas estórias ajudar-nos a descobrir o nosso potencial e as nossas possibilidades em conjunto? Que estórias precisamos de começar a contar? Que estórias precisamos de olhar de um novo ponto de vista? Que estórias precisamos de continuar a contar? E quais deixaram de servir? Que estórias precisamos de parar de contar? Como é que nós – enquanto indivíduos, grupos e coletividades – recuperamos o poder das nossas estórias e as usamos de modo positivo?

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No segundo semestre de 2014, foi-me entregue uma das tarefas mais “inquietantes” que tinha recebido até então. As instruções chegaram à minha caixa de entrada com o título “storytelling train-the-trainers”, mas como em muitas estórias, o simples prelúdio mascarava os desafios que lhe estavam subjacentes.

 

O sétimo dia de formação era para apoiar o Afghani Civil Service Institute, e foi organizado por uma grande agência de desenvolvimento.
Imediatamente a complexidade do mundo do desenvolvimento e os desafios das diferentes culturas organizacionais e humanas no trabalho em conjunto emergiram. E além disso, de modo a dar aos participantes um descanso do stress inerente à vida num país devastado pela guerra, a formação tinha lugar numa cultura completamente diferente – com a cidade de Banguecoque como cenário.

 

Por isso imagine – vimos os nossos participantes na ronda inaugural pela primeira vez, muitos deles ainda não se conheciam. Não sabemos porque é que eles tinham sido selecionados, mas percebemos logo que não eram formadores. Há uma grande diversidade nas aptidões linguísticas e nas capacidades deles. Alguns deles nunca tinham viajado para fora da sua terra-natal.

 

Ao mesmo tempo, os nossos participantes permanecem intimamente ligados a tudo o que está a acontecer de volta a casa através dos seus aparelhos móveis. Nunca sabemos ao certo quem estará na sala. Tudo no cenário nos desafia a concentrar-nos e a aderir. Mas conseguiremos um recipiente adequado para a aprendizagem?

 

Para acrescentar complexidade, apresentamos conceitos de liderança e estória que são por vezes incompreensíveis para os nossos participantes. Sabíamos instintivamente que precisávamos de usar a liderença como porta de entrada para o storytelling, mas não há simplesmente nenhuma palavra em Dari que traduza aquilo que lhes estou a tentar dizer sobre a estória.

 

Não estou a falar de contar estórias a crianças. Não estou a falar de contos de fadas ou fábulas ou de nos sentarmos à volta da fogueira. Estou a falar da mente humana estruturada com e através de estórias e de como as podemos usar a cada momento para dar sentido e propósito ao mundo.

 

Quero que as pessoas vejam como o storytelling as pode ajudar a ser melhores líderes e como ele está a moldar a forma como vemos hoje o mundo. Quero que elas fiquem a saber que estamos a viver numa narrativa e a podemos mudar. Mas como é que podemos ajudar alguém a ver que a vida “normal” que vive pode ser totalmente diferente?

 

Ao terceiro dia, reparámos que metade do grupo não estava a fazer o exercício que tínhamos programado. Acontece que um bombista suicida tinha feito um atentado em Kabul e eles estavam a ver as imagens nos smartphones. O efeito traumático na sala tornou-se evidente e ninguém conseguia prestar atenção ao workshop. As coisas não pareciam estar a funcionar – está a entrar alguma coisa?

 

Mas no final do terceiro dia, como os nossos participantes se ausentaram para um dia de folga, a nossa pequena equipa estava no pico da crise. Podemos sentar-nos à volta da fogueira até que alguém se abra? Podemos confiar no que tínhamos preparado? Podemos confiar uns nos outros? Estamos a conduzir os participantes e a nós mesmos na tentativa de fazer as pazes com o desconhecido.

 

Por fim, chego ao lugar em que sei que tenho de me render. Tenho de abandonar a expetativa de que qualquer coisa que faça vá ficar com os participantes. Tive de abandonar a convicção de que sei o que estou a fazer ou de que sou sequer boa a fazê-lo. Disse aos meus colegas “Não tenho de gostar deles, mas tenho de os amar o suficiente para estar neste trabalho com eles.” – quero encontrar a essência de quem quero ser neste trabalho, em vez do que aquilo que quero fazer. Tenho de acreditar – eu e todos nós – que a estória irá emergir e a magia no seio dela irá acontecer.

 

A partir daí, é como seguir um trilho de migalhas na floresta. Eles criam modelos da realidade atual e daquilo que o futuro pode ser e isso eleva a criativdade e o diálogo a outro nível. Peço-lhe que contem a estória do futuro. Sigo a criatividade deles com a estória “A Cidade Dourada” – uma estória que encontrei há mais de 10 anos e nunca mais vi, mas entretanto chegou à minha mente como uma bênção – e vejo-os a entrarem nela como qualquer pessoa que está a ouvir uma boa estória que lhes pousa no coração. Falamos sobre o papel da liderança enquanto convite e quão importante a sua própria estória de liderança é. A porta está aberta.

 

Na ronda final, passámos por uma pedra – uma lápis lazuli azul-escura, um elemento da paisagem Afegã – e começámos a ouvir sobre o impacto do nosso tempo juntos neles. A estória e a relação são o fio comum. As vozes deles são agora suaves, os rostos deles mudaram, o círculo está carregado de emoção. Embora ainda haja um longo caminho a percorrer, sentimos que algumas sementes foram lançadas.

 

Regressei do trabalho com questões e um compromisso. Há tantas formas de exercermos violência uns nos outros e tantas possibilidade de praticarmos uma nova forma de ser/estar. O que é que é preciso para trocar a narrativa da violência por outra em tantos lugares do mundo? Como é que nos podemos ajudar uns aos outros a expressar-nos de um modo diferente? Em que medida a estória pode ajudar? O que é que eu preciso de aprender, desenvolver ou encorajar no sentido de me tornar útil neste momento no mundo?

 

Como pode o Ativismo de Estórias ser o propulsor da mudança? Creio que encontrei uma das chaves do meu próprio trabalho com o grupo na Tailândia: vivemos numa narrativa, e isso significa que a podemos mudar. Comprometi-me a continuar no ativo e a descobrir como.

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