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FAÇA A SUA REVOLUÇÃO ENERGÉTICA

Written by Jonathon Porritt      Jun 17, 2015

Zach Dischner

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Este é verdadeiramente o pior e o melhor cenário.

 

Vou poupá-lo à versão dolorosa e repetitiva daquilo que “o pior” se afigura. Não é bonito, com o impacto das imparáveis mudanças climáticas já sentidas com efeitos destruidores um pouco por todo o Mundo, com o mundo natural sob constante assalto, e o fosso entre ricos e pobres a alargar-se. E tudo aquilo que os nossos políticos têm para nos oferecer, como resposta a isto, é mais do mesmo – o crescimento económico do costume, alheio às suas consequências negativas, indefinidas no futuro.

 

Para alguém nascido em 2000, com a expetativa razoável nos dias de hoje de chegar a 2100, dado o aumento da esperança média a cada ano, o que, em termos económicos, fazer sempre as coisas da mesma maneira significa traduz-se facilmente em: a economia global em 2011 era 16 vezes mais forte que a atual, com uma população total de cerca de 11 biliões. Mas nem um único líder mundial meditou ainda sobre a eternização deste quase-louco modelo de progresso para o século XXI.

 

Basta pensar no solo. A FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) alertou recentemente o mundo que provavelmente só teremos mais 60 colheitas neste sistema produtivo. 60 colheitas! E para conseguirmos a quantidade de que precisamos para satisfazer as nossas necessidades, a FAO avisa-nos que vamos precisar de outros 6 milhões de hectares para fazer aumentar a produção. E, ao mesmo tempo, confirma-se o que os investigadores nos dizem há décadas: estamos a perder o dobro disso – 12 milhões de hectares – ano após ano devido à erosão e à degradação do solo.

 

Então, é isso: não vai acontecer! Fisicamente, tais projeções de crescimento excedem superam tão largamente qualquer entendimento daquilo a que os cientistas chamam “limites para o crescimento” que os nossos sistemas naturais vão entrar em colapso décadas antes de as previsões se poderem concretizar.

 

Isso são péssimas notícias, se não conseguirmos responder a essa realidade física inevitável, ou ótimas notícias, se começarmos a fazer as mudanças necessárias enquanto é possível.

 

E o que faz deste “o melhor dos cenários”: essas mudanças já estão em curso. Não experimental, mas substancialmente. Não num nicho marginal, mas como uma revolução maciça emergente.

 

Este é o momento da história que eu quis captar em The World We Made, publicado em 2013. E o facto espantoso é que, dois anos depois de completar o meu rascunho final, muitas dessas projeções já se estavam a manifestar no nosso seio! Em todo o mundo. Em cada campo do desenvolvimento humano. Por isso vou deter-me em apenas duas.

 

Primeiro, a revolução solar. Eis o que escrevi, há dois anos, em The World We Made:

“O momento-chave para a energia solar deu-se quando atingimos a ‘paridade com a rede pública” – o ponto em que a eletricidade proveniente da energia solar não custa mais que a de qualquer outra fonte. Isto teve um efeito psicológico enorme: a energia solar deixou de ser uma alternativa irrelevante, para passar a ser o principal recurso. Diferentes países atingiram ou atingirão a paridade com a rede pública em diferentes datas, um pouco por todo o lado, entre 2012 e 2018.”

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Bem, no bom caminho para esse momento de verdade. Em muitos países, o custo da energia solar não-subsidiada (não-subsidiada, note-se!) significa que ela é a primeira opção, quer em países desenvolvidos (onde centenas de milhar de pessoas ainda não estão ligadas à rede pública) e em alguns países desenvolvidos no sudeste da Europa, parte dos EUA, Austrália e por aí fora. É o que está a acontecer hoje em dia.

 

Mesmo a Agência Internacional admite agora que, dentro de poucos anos, este posicionamento competitivo (com os custos da energia solar a caírem continuamente entre 5 e 7% todos os anos ao longo dos próximos) irá transformar literalmente os sistemas energéticos em todos os países. Não é por isso de admirar que os especialistas nas grandes instituições financeiras (incluindo o UBS, Citigroup, Deutsche Bank e outros) estejam consistentemente a sugerir que em 2020 a energia solar não-subsidiada será a fonte de eletricidade mais competitiva do Mundo.

 

E os dinossauros dos combustíveis fósseis terão de aceitar isso. O seu destino já está escrito no poder agregador do movimento do desinvestimento, com cada vez mais investidores de topo a optarem já por reduzir a sua dependência das companhias de carvão. O modo com os nossos mercados de capitais operam não é racional: este é um mundo dominado por sabedoria recebida e mentalidades rebanhistas – e mesmo críticos bastante conservadores acreditam que estamos perto de um abandono sensato do carvão térmico como precursor de um eventual (mas igualmente inevitável) abandono sensato dos combustíveis como um todo.

 

Em suma, a estória é simples: da mesma forma que a idade da pedra não chegou ao fim por falta de pedras, a idade dos combustíveis fósseis não irá acabar devido à escassez de petróleo, carvão e gás. Irá acabar porque a ingenuidade humana irá permitir formas melhores, mais limpas, mais competitivas de fazer face às necessidades humanas.

 

O que me leva à minha segunda “transformação energética”. Serão os jovens (os chamados “Milennials”) que irão conduzir a revolução solar. E não o irão fazer devido a nenhuma espécie de culpa pelos horrores das mudanças climáticas (isso é culpa da minha geração, não da deles), nem porque alguns ecologistas prodigiosos lhes dizem que não têm escolha, se quiserem evitar o degelo, mas simplesmente porque essa é a coisa mais inteligente a fazer. Em termos de valor para o reforço do dinheiro, da aspiração, do estatuto, dos pares – por outras palavras, com as pessoas a responderem como de costume aos estímulos psicológicos essenciais que determinam o comportamento humano.

 

Nós organizámos o Forum for the Future precisamente 20 anos antes de libertarmos aqueles instintos, para promovermos o surgimento de uma agenda de soluções, para permitirmos que grandes empresas mobilizassem os seus vastos recursos (monetários, humanos e tecnológicos) para reforçar a prontidão dos cidadãos para fazer a coisa certa se aquelas “coisas certas” fossem ao mesmo tempo comportáveis e desejáveis.

 

A participação do Hence Forum for the Future’s na Collectively, uma plataforma global de crescente influência que apresenta estórias acerca de pessoas e organizações brilhantes que fazem coisas brilhantes para alimentar as raízes emergentes de um mundo sustentável no processo.

 

Não é que usemos a palavra sustentabilidade com muita frequência, porque ela parece estar desvirtuada. A Collectively tem a ver como as aspirações de jovens a desenhar um mundo melhor, criar novas e inovadoras oportunidades de negócio, sobre padrões de consumo mais colaborativos, sobre discussões interessantes em vez de acessos de culpa.

 

E por detrás da Collectively são 35 das marcas globais mais poderosas do Mundo que chegaram todas à conclusão (pelas razões mais distintas) de que os modelos económicos do costume não são só redudantes, como também crescentemente letais nos perigos que estão a infligir quer às comunidades, quer ao mundo natural.

 

Não culpo ninguém nesta fase que erga o sobrolho ao analisar o rol de marcas envolvidas na Collectively. McDonalds? A sério? Coca-Cola? Facebook? Mesmo! Isto vindo de quem fez pressão política durante 40 anos sobre Os Verdes, os Amigos da Terra e um leque de outras ONGs, estou obviamente cético! Mas pode alguém supor realmente que podemos fazer esta revolução sustentável florescer com companhias globais solidamente alinhadas contra nós a cada passo?

 

Seja como for, se essa abordagem não resultar, os jovens têm mais uma série de truques na manga. Em The World We Made, sugeri que isto podia ser algo mais revolucionário.

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“A 14 de julho de 2018, o movimento Enough! rebentou em França, nos EUA, na Índia e na Rússia, e tornou-se global. Um largo número de pessoas foi mobilizado para conceber um slogan coletivo, com jovens a ocuparem edifícios governamentais, parlamentos, bolsas de valores, jornais e estações de televisão, bancos, empresas petrolíferas e mineiras, autarquias e centros cívicos – uma onda irresistível de fúria partilhada e compaixão.”

 

A minha outra crença pessoal é que nós vamos precisar da insurgência dos Millennials, de uma maneira ou de outra. As forças de oposição, do privilégio, dos interesses adquiridos, dos super-ricos de hoje, invarialmente reforçados pelos nossos media complacentes e corrompidos, estão demasiado enraizados para cederem magnanimamente à nova ordem mundial emergente no seu seio.

 

Por isso, por favor não pense que alistar-se na crescente agenda de desejáveis soluções de hoje é fácil. A injustiça estrutural no mundo de hoje é tanto um inimigo do brilhante mundo sustentável que se abre para nós como o é a influência contínua das empresas de combustíveis fósseis.

 

Por isso, prepare a luta! À medida que nos despojamos do mundo dos combustíveis fósseis de ontem e do crescimento irresponsável e de curto-prazo a todo custo, temos de investir em direitos humanos, justiça social, compaixão e empatia. A tecnologia por si só não o fará; temos de transformar simultaneamente aquelas mentalidades dominantes e destrutivas que nos levaram a este momento precário na curta história da civilização humana.

 

Jonathon Porritt é o Diretor-Fundador do Forum of the Future, a instituição pró-desenvolvimento sustentável líder do Reino Unido. Para saber mais sobre ele, clique aqui.

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