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A (R)EVOLUÇÃO MINDFUL

Written by Vasco Gaspar      Set 22, 2015

5 razões porque o Mindfulness é a nossa maior esperança para a mudança social e organizacional.

 “A qualidade da nossa atenção determina a qualidade do nossos resultados” defende Otto Scharmer, um conhecido conferencista sénior do MIT, escritor e consultor organizacional (e acredito que um futuro Prémio Nobel nas Ciências Económicas). Num mundo VUCA (em português: volátil, incerto, complexo e ambíguo) todos estão a exigir mais e melhores resultados, mas o que normalmente vemos a acontecer é precisamente o oposto. O nosso modo de viver hiper-conectado e a alta velocidade está a tornar-nos seres humanos mais stressados, superficiais e com dificuldade em oferecer “esses” bons resultados.

 

Mais, nós estamos todos juntos a criar resultados que ninguém quer, pondo em perigo a nossa saúde (há 3 vezes mais pessoas a morrer no mundo devido ao suicídio, do que de assassínios, guerras e desastres naturais combinados), a nossa sociedade (há 2.5 biliões de pessoas a viver abaixo do limite da pobreza) e o nosso planeta (estamos a consumir em média 1 planeta e meio quando, obviamente, nós só temos um).

 

Então, como podemos nós inverter esta tendência? Como podemos ajudar as pessoas a ficarem mais conscientes? Como podemos criar um “novo mundo”, mais saudável, mais justo, mais ecológico? Como podemos em conjunto, criar condições para que cada ser humano possa manifestar o seu “EU” (com E maiúsculo) e o seu “Trabalho” (com T maiúsculo), contribuindo desta forma para um mundo melhor para todos nós?

 

Eu acredito realmente que a que resposta está numa técnica com (pelo menos) mais de 2.500 anos: a meditação mindfulness.

 

“Espere um minuto”, pode estar você a pensar, “está a dizer-me que os problemas do mundo podem ser resolvidos simplesmente a fazer nada?”. Antes que pense que eu estou louco e pare de ler, fique por favor comigo só mais uns parágrafos.

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Mindfulness é agora um movimento de massas que atinge várias esferas da nossa sociedade. Neste momento em que estou a escrever este artigo (Fevereiro de 2014) a Mindfulness está a atingir um ponto de inflexão na nossa sociedade ocidental, aparecendo inclusivamente como capa da revista TIME, com o título “A Revolução Mindful”. Através de uma prática que há alguns anos atrás se restringia a alguns grupos religiosos, “new age” ou esotéricos, está agora a ser usada em diferentes áreas:

 

–    ciência (ex: neurociências, neurobiologia interpessoal, epigenética);

–    saúde (ex: Universidade de Medicina de Harvard, Hospital Geral de Massachusetts, Hospital de Monte Sinai);

–    empresas (ex: Google, General Mills e até o Exército dos EUA)

–    liderança (ex: Bil George, ex-CEO da Medtronic; Steve Jobs – falecido CEO da Apple, Arianna Huffington -Presidente e Editora Chefe da Huffington Post; Bill Ford – Presidente Executivo da Ford Motor Companies, entre muitos outros que recentemente “saíram do armário”.)

–    educação (não só em centenas de escolas no mundo mas também em centros de formação de ponta na área da liderança como o MIT Sloan Leadership Center, Weatherhead School of Management ou Harvard Business School);

–    desporto (a equipa de Ginástica Olímpica dos Estados Unidos, a equipa “sensação” da NFL Seattle Seahawks e até Phil Jackson, ex-treinador da NBA que guiou os Chicago Bulls de Michael Jordan ou os LA Lakers de Kobe Bryant a diversas vitórias, partilhou recentemente que uma das partes importantes dos seus treinos foi a meditação mindfulness);

–    políticos (ex: Mindfulness é agora oferecida aos colaboradores do parlamento inglês; proposta do congressista americano Tim Ryan para uma “nação mindful”);

–    alta finança (ex: o Fórum Mundial de Economia de Favos 2014 teve mais de 25 sessões sobre mindfulness e bem-estar);

–    media (ex: revista TIME, Huffington Post, Forbes, New York Times, The Economist, WIRED, Fast Company, etc.)

 

O mais importante primeiro: alinhando-nos!

 

Antes de falarmos sobre porque é que esta (r)evoluçao está a acontecer, vamos só revelar o que queremos dizer com mindfulness.

 

Uma forma simples de descrever este conceito, usando as palavras de Richard Boyatzis, da Case Western Reserve University é “estar acordado, consciente e atento”. Basicamente estar aqui e agora, totalmente presente no momento. Jon Kabat-Zinn, Director Executivo do Centro de Mindfulness na Medicina, Saúde e Sociedade (na Escola de Medicina da Universidade de Massachusetts) e um dos maiores responsáveis pela emergência deste movimento no Ocidente, descreve mindfulness como “a consciência que surge ao prestarmos atenção de determinada maneira: de propósito, no momento presente, e sem julgamento”. Parece bastante simples. E de facto, é. Não necessariamente fácil, mas simples. E toda a gente pode fazê-lo e usá-lo para fortalecer a sua habilidade para estar presente, no momento, e não ser apanhado no julgamentos acerca do passado ou do futuro.

 

Então, porquê agora? Se estas práticas já existem há milénios, o que está a causar agora a sua emergência?

 

Deixem-me partilhar 5 razões pelas quais eu acredito que o Mindfulness está a emergir agora e é talvez a nossa maior esperança para a mudança organizacional e social.

 

1.  A ciência provou que podemos usar a mente para mudar o cérebro. 

Ao longo dos anos houve uma crença muito forte de que o cérebro era estático e não mudava no decurso da vida. Com o surgimento de tecnologias não invasivas de imagem cerebral agora sabemos que esta certeza não poderia estar mais longe da verdade. Citando Richard Davidson (um reconhecido cientista da Universidade de Madison-Wisconsin): “O cérebro que conhecemos é o órgão que muda em reação à experiência, e em resposta ao treino reage provavelmente mais do que qualquer outro órgão do nosso corpo. Sendo assim, o cérebro é o veículo para a transformação e mudança como também para outra coisa qualquer.” Esta característica do cérebro é chamada “neuroplasticidade” e existem agora vários estudos da neurociência que defendem isto. A ciência tem vindo a mostrar que a meditação mindfulness permite o treino e experiência para mudar o cérebro, por exemplo, em áreas que regulam a atenção, o pensamento executivo, e o equilibro emocional, mas pode também produzir mudanças epigenéticas! Um estudo impressionante do laboratório de Richard Davidson recentemente publicado no jornal Psychoneuroendocrinology  demonstrou mudanças na expressão de diversos genes depois de apenas 8 horas de prática de meditação. Estes eram genes responsáveis por controlar a resposta inflamatória do corpo, que pode explicar a razão pela qual os praticantes de meditação tendem a ter sistemas imunitários mais fortes, menos doenças e períodos curtos de recuperação quando estão doentes.

 

Estes são apenas alguns exemplos do que está a acontecer no campo científico, onde nós podemos atualmente encontrar mais de 3000 estudos científicos revistos por pares e que continuam a crescer exponencialmente. Esta sustentação da ciência é provavelmente a razão principal da meditação mindfulness ter-se tornado uma questão de massas, as pessoas agora começam a compreender os seus benefícios e a sentirem-se seguras para começar a aplicar estas práticas nas suas vidas.

 

2.  Nós podemos usar a nossa atenção para cultivar uma vida saudável 

Ajudar as pessoas a “resgatar” a sua saúde e bem-estar é outra razão pela qual as práticas de mindfulness estão a ter uma importância crescente. A maioria dos estudos mencionados previamente são do campo da psicologia, medicina e saúde em geral. Desde 1979, quando Jon Kabat-Zinn decidiu criar um programa para tratar questões relacionadas com a dor crónica e stress (MBSR – Mindfulness Based Stress Reduction), a abordagens baseadas em mindfulness estão a espalhar-se a um passo muito rápido pelo mundo inteiro, com mais de 12,000 professores certificados de MBSR em mais de 740 locais (centros académicos e médicos, hospitais, clínicas, etc.), que usam esta tecnologia para tratar casos clínicos como:

 

–   desordens de ansiedade (ex: ataques de pânico, stress pós-traumático, etc.)

–   doenças relacionadas com stress (ex: tensão arterial alta, diabetes, doenças cardíacas, cancro, etc.)

–   dor crónica

–   depressão

–   adição a substâncias

–   insónias

–   défice de atenção e desordem de hiperatividade

–   e muitos, muitos mais.

 

Mas a boa notícia é que o mindfulness não é aplicado apenas para tratar casos clínicos mas também é aplicável a qualquer pessoa que queira nutrir uma sensação geral de bem-estar e felicidade, visto que esse é um “efeito positivo” que normalmente emerge quando se usam este tipo de práticas.

 

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3.  Com uma maior consciência nós podemos ter melhores resultados… e salvar o mundo 

As abordagens baseadas na meditação mindfulness começaram a ser aplicadas nas empresas para ajudar as pessoas a lidarem com o stress e a cultivarem a sua saúde e bem-estar no seu local de trabalho. Contudo algo interessante está a suceder neste âmbito, com Silicon Valley a liderar uma nova tendência no uso das práticas de mindfulness no ambiente de trabalho. De acordo com um artigo  de 2013 da revista WIRED “a meditação e o mindfulness são a nova moda em Silicon Valley. E não se trata apenas de paz interior, trata-se de ficar à frente”. Sim, leu bem, ficar à frente.

 

Um dos maiores “responsáveis” por este movimento é Chade-Meng Tan, um engenheiro da Google que criou  um programa denominado “Procure Dentro de Si” (“Search Inside Yourself” ou SIY). SIY é um programa de liderança que combina os mais recentes avanços da neurociência com as práticas contemplativas, como a meditação mindfulness e é projetado para desenvolver a inteligência emocional dos seus participantes. Desde a sua criação mais de 1,000 “googlers” (colaboradores da Google) realizaram o curso estando previsto apenas este ano a realização para mais 2000. Está a crescer uma evidência científica para a relação entre a inteligência emocional e a performance e, segundo Meng, cujo título de trabalho é “bom companheiro”, este programa pode ajudar as pessoas a melhorar os seus resultados, sentirem-se mais felizes e… salvar o mundo – o maior objectivo de Meng é criar as condições favoráveis para a paz mundial durante a sua vida. Parece uma meta ousada, mas o mais interessante é que ele tem ressoado com milhares de pessoas de todo o mundo que já compraram o seu livro e estão a aplicar os seus ensinamentos. O sucesso é tão grande que, pela primeira vez na vida da Google, os seus advogados permitiram que um produto de marca interna fizesse um spin-off, sem o pagamento de royalties para a Google, criando uma corporação sem fins lucrativos e para o benefício comum – Search Inside Yourself Leadership Institute ou SIYLI – que está agora a oferecer o programa a pessoas de todo o mundo.

 

Mas a Google não é o único caso empresarial. Várias empresas à volta do mundo, como General Mills, Genentech, Apple, Sony e até aUS Army, estão a usar as abordagens baseadas em mindfulness para melhorar o seu desempenho global e o bem-estar dos seus colaboradores. Segundo  Michael Chaskalson, um consultor minfulness que aplica mindfulness nas organizações, depois de um curso de minfulness de 8 semanas no ambiente de trabalho é esperado observar nos participantes:

 

–     redução dos níveis de stress

–     um aumento nos seus níveis de inteligência emocional

–     sensibilidade interpessoal desenvolvida

–     maiores níveis de resiliência pessoal

–     taxas menores de absentismo relacionado com a saúde;

–     aumento da auto-consciência e consciência dos outros;

–     reforço da capacidade de comunicação;

–     desenvolvimento da capacidade de concentração e de atenção;

–     níveis menores de impulsividade;

–     maior capacidade para armazenar e manipular informação;

–     melhoria dos padrões de sono;

–     níveis mais baixos de sofrimento psíquico, como depressão e ansiedade;

–     e níveis mais elevados de bem-estar e de trabalho em geral e satisfação com a vida.

 

Parece o “paraíso” não é? Então sinta-se livre para enviar este artigo para o seu chefe, assim toda a gente ganha com este “acordo mindful”. Vai sentir-se mais feliz, a sua equipa vai trabalhar melhor e a sua empresa vai ser mais produtiva.

 

4.  Estar consciente de mim próprio e do que me rodeia contribui para eu tomar melhores decisões 

Daniel J. Siegel é um professor clínico de psiquiatria da Escola de Medicina da UCLA e fundador de uma nova área científica denominada Neurobiologia Interpessoal. De acordo com Siegel, a saúde, a criatividade e sabedoria desenvolvem-se a partir de um cérebro bem integrado, especialmente no córtex pré-frontal medial. Esta é uma estrutura cerebral muito importante, responsável por funções como a regulação do corpo, equilíbrio emocional, a gestão do medo, a sintonia e empatia com outras pessoas (ambos necessários para a compaixão), a capacidade d eter ideias, a intuição, a gestão da impulsividade e a moralidade. Esta é uma parte do cérebro que amadurece após a adolescência e uma prática que contribui para o seu desenvolvimento integrado é … adivinhe você, a meditação mindfulness. Imagine então que pessoas de todo o mundo estariam mais conscientes, mais seguras, mais conectadas consigo mesmas e com os outros e a tomar decisões não só pensando no seu próprio benefício mas também em benefícios de todos os seres. Imagine o impacto destes “cérebros maduros” em decisores, como políticos, CEO’s e banqueiros de todo o mundo. Vamos fazer as melhores escolhas e ter esperança no mundo!

 

5.  Ensinar as pessoas como meditar e como estar presente pode mudar o mundo numa só geração

“Se for ensinada meditação às crianças de 8 anos, iremos eliminar a violência do mundo numa geração.” Esta é uma afirmação ousada de Sua Santidade o Dalai Lama e há alguns anos atrás a maioria das pessoas iriam rir ao ouvi-la. Agora, felizmente, e com base em tudo o descrito antes, isto pode tornar-se uma realidade. Escolas de todo o mundo já estão a experimentar o impacto destas práticas não só em crianças, mas em todo o sistema, desde os professores aos pais. Projetos como “Mindful Schools” nos Estados Unidos ou “Be” no Reino Unido já ensinaram mindfulness a centenas de milhares de crianças e todos estão a sentir-se mais focados, menos stressados, mais produtivos e, especialmente, mais em paz. Pense nisto. Haverá algo mais importante a ensinar ao ser humano, do que a própria essência do que é ser humano? Para se sentir em paz, presente no momento, conectada com ele/ela e especialmente ligado de uma forma compassiva com o mundo que nos rodeia?

 

Um futuro brilhante para todos nós

 

Imagino um futuro próximo onde a maioria das organizações (empresas, hospitais, escolas, etc) terão salas de meditação, vão investir na formação de mindfulness e compaixão para os seus colaboradores onde todos possam estar em paz consigo mesmos e com os outros. Mais, um futuro onde as pessoas usam mindfulness como uma prática de higiene mental e emocional, da mesma forma como nós atualmente tomamos banho e escovamos os dentes como práticas da higiene física.

 

O meu sonho é fazer parte deste futuro, espalhando a palavra e ajudar as pessoas a florescerem até ao seu potencial humano máximo por todo o mundo. Enquanto estou a terminar de escrever estas palavras estou prestes a apanhar um avião para São Francisco. Felizmente fui um dos 30 selecionados que foram abençoados para fazer parte da primeira formação certificada de professores de metodologia “Procure Dentro de Si” ou Search Inside Yourself. Apenas me posso sentir grato e entusiasmado com esta oportunidade que é um pontapé de partida para concretizar o meu sonho. E eu quero mesmo dedicar a minha vida a isto! Porquê? Porque acredito realmente que a prática de nos ligarmos a nós próprios e ao que nos rodeia no momento presente é a nossa maior esperança para a mudança organizacional e social, e pode realmente levar à criação de condições para a paz mundial.

 

Para saber mais sobre Vasco Gaspar, clique aqui.

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