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AIDGLOBAL: 9 ANOS A EDUCAR PARA A CIDADANIA GLOBAL

Written by Rita Pinho Matos      Nov 26, 2014

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Despertar consciências e combater a iliteracia em Portugal e Moçambique são os objetivos essenciais desta Organização Não-Governamental referenciada a nível Europeu.

Em novembro de 2005, após uma experiência de voluntariado num orfanato Moçambicano, Susana Damasceno decidiu abandonar a carreira de docente para abraçar o caminho da solidariedade e da transformação social. Assim surgiu a AIDGLOBAL (Ação e Integração para o Desenvolvimento Global).

 

O trabalho desta Organização Não-Governamental, cuja equipa em Portugal é exclusivamente composta por mulheres, assenta em dois polos: “Educação para a Cidadania Global”, que visa consciencializar crianças, jovens e adultos em Portugal para as causas das desigualdades no mundo e “Cooperação para o Desenvolvimento”, pensado para o combate à iliteracia em Moçambique, mediante a construção e o reforço de bibliotecas municipais e escolares.

 

Vamos abrir o livro destes 9 anos de luta por um mundo mais capaz, justo, igualitário e risonho.

 

PRÓLOGO: CASAMENTO COM O DEVER

 

“Fundar uma ONG é como um casamento. Se pensamos muito, não casamos. Se não pensamos, as coisas acontecem”, conta Susana, 41 anos, Diretora Executiva da AIDGLOBAL. Um impulso interior fê-la deixar de lecionar – era professora de Português e Inglês do 2.º ciclo – para criar a associação e se dedicar inteiramente a ela. Sentiu-o ao escrever aos familiares e amigos sobre o dia-a-dia no orfanato da Divina Providência de Conhane, em Chokwé, onde dinamizava uma pequena ludoteca e promovia atividades, designadamente de apoio ao estudo, leitura, jogos tradicionais ou ateliês para construção de instrumentos musicais. Nessa carta, falava com pesar de uma freira que só lera a história da Cinderela aos 21 anos e confessava sentir-se responsável por levar meninos como os que então conhecera a viajar por esse mundo de fantasia e esperança por meio da leitura.

 

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A Susana juntaram-se 5 jovens mulheres nesta missão. Sofia Lopes, 35 anos, Gestora de Projetos, é o seu braço direito. Sofia chegou à AIDGLOBAL como voluntária em 2007 e depressa se tornou numa “fiel seguidora dos temas de Educação para a Cidadania por um mundo sem desigualdades”, afirma. E porquê esta solidariedade no feminino? Mera coincidência ou estratégia? Talvez um pouco de ambos, como explica Susana: “No terceiro setor, a liderança é tendencialmente feminina. Temos tido maioritariamente mulheres a trabalhar nesta organização. Mas a tendência está a inverter-se e os homens que gostam de gestão começam a fazer algum trabalho neste setor.

 

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EDUCAR PARA COOPERAR – UM CASE STUDY A NÍVEL EUROPEU

 

Enquanto responsável pela construção de uma cidadania ativa abrangente, a escola tem um papel fulcral na sensibilização dos mais novos para as desigualdades globais. Ora, é aqui que entra também na sala de aula a AIDGLOBAL, promovendo atividades junto de professores e alunos de escolas de Lisboa e Loures, através do projeto “Educar para Cooperar”. Este último já envolveu, até à data, mais de 2.700 alunos em 11 estabelecimentos de ensino dos 2.º e 3.º ciclos. “Queremos dar a conhecer o mundo para além dos tablets”, esclarece Susana. E que mundo é esse? O do Desenvolvimento Sustentável, do Consumo Responsável, do Comércio Justo, da Igualdade de Género, entre outros temas inerentes à Educação para uma Cidadania Global.

 

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O projeto mereceu recentemente o aplauso do GENE – Global Education Network Europe,uma rede de ministérios, instituições e organizações não-governamentais responsável pelo apoio, financiamento e pela elaboração de políticas neste campo. O GENE analisou o estado do mesmo e identificou o projeto da AIDGLOBAL “Educar para Cooperar” como um caso de estudo.

 

PASSAPORTE PARA A LEITURA PARA O CORAÇÃO DE GAZA

 

O distrito do Chibuto está situado na Província de Gaza, em Moçambique. Tem uma população total de 166.536 habitantes e uma densidade populacional de cerca de 28 habitantes por km2. De acordo com um estudo publicado em janeiro deste ano por Alfeu Jacinto Vilanculos e Nelson Maria Rosário, professores na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, “mais de metade da população do distrito ainda vive no campo, em lugares que, em muitos casos, são de difícil acesso, que enfrentam vários problemas, como falta de infraestruturas” e onde uma parte considerável das pessoas “continua a consumir água sem tratamento dos rios e lagos, homem e animal disputam as mesmas áreas para a satisfação de suas necessidades básicas.”

 

Grande parte das crianças do Chibuto só tem contacto com a língua Portuguesa quando vai à escola. Castigo Tchume, o coordenador da delegação da AIDGLOBAL em Moçambique, não se importa de traduzir as estórias para Changana a fim de as poder contar a muitos meninos. “Há uma fotografia em que o Castigo está em cima de uma bibliotchova (biblioteca móvel) a ler e as crianças a ouvirem completamente deslumbradas”, relata a diretora da organização. “Quando as nossas animadoras de leitura sentavam em roda, os alunos e os professores… muitos professores resistiam em se sentar, porque, em Moçambique, o professor não se senta ao lado do aluno – são questões culturais que têm de ser compreendidas e levadas com muito respeito… Aquelas crianças sentavam-se, começavam a ouvir as animadoras a ler as estórias e iam-se transformando. Então quando lhes pediam para imitarem os bichos, elas começavam a desabrochar. E a roda, que era de 20 crianças, 25, 30 crianças aumentava para 100 crianças, mas o silêncio era absoluto. A chegada de mais crianças não era sinónimo de alteração de comportamentos. Os alunos eram capazes de um silêncio orquestral.”, conclui, emocionada.

 

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Até à data, no âmbito do “Passaporte para a Leitura”, a AIDGLOBAL já equipou 3 bibliotecas municipais da Província de Gaza e 27 bibliotecas escolares do Distrito do Chibuto – 11 são bibliotchovas – com mais de 40 mil livros e 129 computadores. 

 

9 ANOS DE LUTA

 

Passando em revista os 9 anos de existência da organização, Susana Damasceno destaca como maior feito precisamente a criação de uma rede de bibliotecas escolares em Moçambique e como maior obstáculo a falta de sustentabilidade. De facto, esse entrave acabou por moldar a ação da AIDGLOBAL, sem que isso fosse na sua essência algo negativo, visto que lhe possibilitou ir ao encontro da sua verdadeira vocação: “Já tocámos muitas áreas… Porque queríamos mudar o mundo, começámos com 5 áreas – migrações, juventude, cooperação e educação para o desenvolvimento e formação. Fomos por tentativa e erro e, mesmo nas áreas que deixámos cair, como o caso das migrações, fizemos um trabalho muito honesto e reconhecido. Aliás, os nossos 3 projetos para os imigrantes em Portugal aparecem referenciados num mapeamento de boas práticas do ACIDI. Fechámos essas áreas, porque não eram sustentáveis e não era esse o caminho, e centrámo-nos na educação.”

 

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Porém, ainda há muito trabalho a fazer nesta esfera. Neste momento, uma forma de o tornar mais abrangente seria “conseguir ter mais empresas a confiar na AIDGLOBAL no sentido de sermos nós os operacionais da sua responsabilidade social. Assim teríamos parcerias muito mais sólidas e garantiríamos a nossa sustentabilidade”, salienta. Para tal, diz, “falta que olhem para nós como uma organização sexy.”

 

EPÍLOGO: QUE FUTURO PARA AS NOSSAS CRIANÇAS? 

 

O que move Sofia Lopes a fazer parte desta missão é sobretudo um sonho: “Adorava que, perante uma situação de violência, de bullying, uma criança levantasse a voz e dissesse: ‘Não, não se pode fazer isso, não se pode agredir, não se pode maltratar. E que essa criança saísse da escola e ajudasse os pais, os vizinhos, a associação da comunidade…” Contudo, a aprendizagem não se esgota na juventude: “…e que mais tarde fizesse voluntariado, que fosse ao supermercado e optasse por produtos de comércio justo, que em casa não desperdiçasse água nem eletricidade. Que cultivasse isso no dia-a-dia”, remata.

 

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Susana afina pelo mesmo diapasão: “Num mundo em que estamos tão baralhados com as nossas prioridades, esta consciência do outro, do… ‘Eu só existo, porque o outro existe numa relação comigo’ é fundamental. Por aqui nós somos um exemplo. Nós queremos que as pessoas tomem, posições, saiam do rebanho, sejam ativistas, conscientes, responsáveis, e acima de tudo, que valorizem as suas vidas e percebam que podem ser a mudança de que o mundo precisa.”

 

Se a história da AIDGLOBAL desse um livro, que título lhe dariam? Susana não tem dúvidas: “É difícil, mas é possível.” Difícil, mas possível é também seguir o rasto de muitos destes meninos, saber o que será das suas vidas daqui a 10, 20, 30 anos. Ganharão o gosto pelas letras? A diretora da organização evoca a alegria estampada nos rostos e nos corações dos petizes do Chibuto que tantas vezes testemunhou e fantasia em voz alta: “Quem sabe quantos alunos não se tornarão escritores por terem lido livros que a AIDGLOBAL entregou?”

 

 

 

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