Projetos e pessoas extraordinárias que estão a mudar o mundo


Navigation Menu+

PRESENTISMO LABORAL

Written by Catarina Cunha – Psicóloga Clínica da Oficina de Psicologia      Dez 30, 2014

alejandroescamilla-white-shoes

Estar presente não é apenas o contrário de estar ausente.

A palavra absentismo significa “hábito de não comparecer, de estar ausente”, ou seja, caracteriza a pessoa que falta aos seus compromissos. Quando colocada no contexto laboral, a palavra absentismo é muito conhecida, descrevendo a pessoa que falta ao trabalho, por motivos de doença ou questões pessoais. Logo, é seguro concluir que a palavra presentismo caracteriza o oposto: uma pessoa que está presente, que comparece e que não falha aos seus compromissos e responsabilidades. No entanto, esta descrição apenas engloba a presença ou ausência física num determinado contexto – neste caso, no contexto laboral. Existe também uma presença mental ou, como se diz no senso comum uma “presença de espírito”, que é necessária para que o trabalho decorra proficuamente.

 

Quantas vezes deu por si perdido/a no fluxo de pensamentos, acerca de questões pessoais (discussões com o/a cônjuge, preocupações com os/as filhos/as, opinião que alguém possa ter de si, etc.), durante o horário de trabalho? Ou quantas vezes se distraiu com sons ou cheiros à sua volta ou dores no corpo que vão surgindo e que rapidamente parecem impossíveis de ignorar? E quantas vezes sentiu que não se conseguia concentrar no que estava a fazer ou que o que lhe diziam, logo a seguir, era esquecido?

 

A mente tem muitas formas de nos retirar do caminho que queremos. E, portanto, ao falarmos sobre presentismo laboral, não importa apenas a presença física no trabalho – podemos estar horas a fio no escritório, sem que as tarefas que temos para fazer sejam concluídas, por distracção, falta de concentração ou dificuldade em manter-se motivado/a. Presentismo laboral não é apenas uma presença de “corpo”, tem de ser uma presença de “corpo e alma”. Isto significa que tanto o corpo como a mente devem estar conectados com a tarefa em mãos para que esta seja bem-sucedida.

 

Então, como é possível contrariar estes processos de distracção da mente?

 

Numa palavra apenas podemos sumariar a solução para este problema: Mindfulness. Contudo, esta palavra abarca muitos significados, que passo a explicar.

 

Mindfulness não tem uma tradução directa para a língua portuguesa, mas o seu significado é atenção ou consciência plena. É uma atitude que se desenvolve (e que se treina) e que tem como principal objectivo conectar a pessoa ao momento presente que ela vive. Não importa o que aconteceu no passado e ainda está a remoer na sua cabeça, muito menos o futuro que está a antecipar e que não sabe se se irá concretizar. Mindfulness é uma palavra que só conjuga os verbos no presente: “o que sinto”, “o que penso”, “o que digo” ou “o que faço”.

 

O aqui e o agora são as directrizes espaciais e temporais mais importantes da nossa vida, e talvez as mais ignoradas. São os pontos cardeais para a exploração do mundo, para o que nos rodeia. Todavia, a mente acaba sempre por nos puxar para o passado ou para o futuro, retirando o ónus do presente.

 

Recorda-se da última vez que sentiu a temperatura da mão de uma pessoa que o/a cumprimenta? Sabe quantas garfadas deu no seu almoço de ontem? Lembra-se por quantos sinais de trânsito passa no seu trajecto até ao trabalho? Se respondeu “não” a estas perguntas, significa que ainda não está atento/a e consciente do momento presente.

 

Mas qual é a grande vantagem em ser mindful, ou seja, em estar no presente?

 

Regressando ao início deste texto, falávamos em presentismo laboral, ou seja, em estar presente de “corpo e alma” no contexto do trabalho e como isso é condição fundamental para o desenvolvimento de um bom trabalho. E essa é uma grande vantagem em ser mindful: ajuda a que uma pessoa esteja activamente e conscientemente concentrada nas tarefas a cumprir; o que, por consequência, aumenta a sua produtividade e eficácia.

 

Deste modo, o Mindfulness tem-se tornado numa nova vaga no mundo empresarial. Fala-se em “Mindful Leadership” (i.e. liderança mindful), em “Mindful Workplaces” (i.e. locais de trabalho mindful), ou “Mindful Business” (i.e. negócio mindful). Desde 2007, uma das maiores empresas do mundo, a Google, tem uma equipa específica encarregue de desenvolver capacidades mindful e de inteligência emocional nos/nas colaboradores/as da empresa, o qual deu origem ao livro “Search Inside Yourself” de Chade-Meng Tan, o mentor do projecto. Segundo o autor, após a participação nas sessões de Mindfulness, “alguns/algumas participantes encontraram um novo significado no seu trabalho e passaram a sentir-se mais realizados/as, (…) outros/as tornaram-se melhores no que faziam.”

 

De uma forma geral, empresas em todo o mundo começam a olhar para o Mindfulness como uma solução que pode trazer maior satisfação laboral e, simultaneamente, maior produtividade. A época em que os/as trabalhadores/as eram “escravizados/as” já terminou – agora o lema é “less is more!”, ou seja, “menos é mais”. Menos stress e mais eficácia no trabalho – e isso é alcançável através deste presentismo laboral que tanto falamos.

 

O presentismo de mente, a concentração consciente e intencional numa dada tarefa, também permite desligar quando esta é concluída. Uma das questões principais de insatisfação laboral é a dificuldade em separar os momentos de trabalho dos momentos de lazer – e é um aspecto essencial para que o trabalho desenvolvido seja mais eficaz. Quando está a trabalhar, está apenas a trabalhar; mas quando está em casa em momentos de lazer, está apenas em momentos de lazer. E estas duas realidades não se cruzam, permitindo que a pessoa realmente restabeleça as energias que necessita para, no dia seguinte, regressar ao trabalho.

 

Mas afinal como posso ser mindful?

 

A resposta, embora simples na sua constituição, é complexa na sua execução. Para ser mindful basta decidir e treinar. Isto é, tem de tomar a decisão consciente de que o Mindfulness é o caminho certo para si e depois tomar as acções necessárias para percorrer esse caminho, o que envolve muito treino. Tal como deixar de fumar, começar uma dieta ou iniciar prática de exercício físico, o Mindfulness tem uma fase inicial mais difícil, em que muitas vezes é mais fácil desistir; contudo, a partir de certa altura, torna-se num hábito e numa forma de vida natural.

 

O treino de Mindfulness envolve exercícios de meditação, de foco de atenção, alterações na sua rotina diária, desenvolvimento de autoconhecimento dos seus pensamentos, das suas emoções e das suas acções mais comuns. É uma decisão consciente de ligar os canais sensoriais (audição, olfacto, visão, paladar, tacto e propriocepção) para que estes sejam uma porta de entrada para o aqui e o agora. É olhar para os pensamentos como eles são: realidades construídas e não factos comprovados. É compreender o funcionamento das emoções e das memórias. É desligar o piloto automático em que a nossa vida prossegue sem controlo.

 

Em específico para desenvolver uma atitude mais presente no contexto laboral, seria necessário treinar o foco da atenção para que este se prolongue no tempo – ou seja, para que consiga estar mais tempo concentrado na tarefa. Para além disso, seria importante compreender as emoções e os pensamentos associados ao ambiente laboral e trabalhá-los de forma a alcançar uma maior satisfação com o mesmo. Desta forma, os pilares necessários à produtividade estariam presentes: a eficácia no trabalho e a satisfação laboral.

 

Como é que eu posso começar?

 

Enquanto lê este artigo, experimente simplesmente parar e ouvir os sons à sua volta. Pode ouvir os passos das pessoas à sua volta, a sua respiração e a deles/as, telefones que possam tocar ou o teclar nos computadores – entre tantos outros sons que sejam específicos ao seu ambiente. Concentre-se individualmente em cada um destes sons, sinta-os vivamente! E sempre que a sua mente fugir para outros pensamentos ou para outras sensações, basta reparar e voltar calmamente para o foco de atenção sonoro que tinha escolhido.

 

Experimente e veja como consegue estar conectado ao momento presente. Esta é a “magia” do Mindfulness: ao fazer menos consegue mais, ao estar presente consegue ser mais. 

VEJA TAMBÉM

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

IM Magazine reserves the right to approve all comments.
Ofensive comments will not be accepted.