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“SOU UMA MIGALHA E SOU DIVINA”

     Jan 13, 2014

BS-7413

Escrito por Sandra Costa

 

Com uma capacidade de se expor pouco comum, a psicóloga Marta Gautier fala do seu percurso espiritual, de como não abdica de procurar no mais íntimo de si o que lhe falta para preencher o vazio que invade todos aqueles que têm coragem para parar e enfrentá-lo.  

 

Há mentes mais inquietas que outras. Marta Gautier sabe-o. Reconhece que tem tudo para ser feliz: é saudável, casada e com três filhos, tem uma profissão de que gosta e onde é reconhecida. Mesmo assim, sente que quer mais, recusa fugir ao confronto com “o vazio interior que todos sentimos” e continua a construir passo a passo o seu caminho espiritual.

 

Há cerca de três anos, a vida pô-la em circunstâncias de concretizar um sonho antigo. A Fundação onde trabalhava quatro dias por semana como psicóloga fechou por causa da crise. O que perdeu em rendimentos ganhou em tempo.

Arranjou coragem para pôr em prática um sonho antigo: fazer stand up comedy. Um desejo estranho para alguém que corava de cada vez que tinha de apresentar um trabalho em frente à sala de aula. Alguém que tinha uma carreira construída, escrevia livros, era uma mulher “bonitinha”, sem qualquer traço fisionómico particular.

 

“Tinha a intuição de que aquilo ia funcionar à minha maneira, sem aprender as regras”, explica. Disseram-lhe que não, que tinha de começar por um curso e optou por ser “humilde” e lá o fez, mesmo sem ser permeável a todas as regras.

 

Em novembro de 2011 estreou a sua peça “Vamos lá perceber as mulheres. Mas só um bocadinho”, ainda em cena. Nervos à parte, foi um sucesso. Recebeu reconhecimento, choveram convites, o dinheiro começou a aparecer. Acima de tudo, confirmou que tinha razão e “isso dá uma grande força”. Ganhou mais “autoestima”, assume, ironizando: “As pessoas adoram esta palavra, não é?”

 

Mas nem vencer esta batalha aquietou a alma de Marta Gautier, que continua a ser invadida pela sensação de vazio. “Às vezes depois do espetáculo, chego a casa, estão todos a dormir e chega uma tristeza. De onde vem isto? Porquê? Talvez para me distrair dos aplausos…”, diz. Porque, “os aplausos são egoísticos, não há aplausos no mundo que preencham o meu vazio”.

 

“Há qualquer coisa mais”, pensa às vezes à noite, na solidão da cozinha. E ela continua à procura. “Ainda estou a ver se me encontro no meio disto tudo”.

 

“A infelicidade é a maior companhia”

Na procura do seu caminho espiritual Marta Gautier tem-se confrontado com as enormes contradições de ser humano. “Todos dizem que querem ser felizes. Mas a minha experiência de vida e de consultório diz-me que não é assim e que a infelicidade é a maior companhia que há”.

 

A primeira desculpa que arranjamos para não contrariarmos o nosso estado de infelicidade ou arriscarmos ir atrás daquilo que queremos é a falta de tempo. A verdade é que “as pessoas inventam que não têm tempo para não se confrontarem com o vazio que sentem”, declara Marta Gautier. É mais fácil dizermos: “Mais tarde eu vou amar como deve ser”.

 

A tendência para adiar o amor vem de percebermos que o amor é das coisas mais importantes, mas também das mais difíceis. Porque “a felicidade tira-nos do chão, é indizível e subtil. Não há história e nós queremos pertencer à história, à intriga”.

 

Ao medo junta-se a perda de liberdade que se segue ao sucesso que alcançamos. Por orgulho e por ego queremos corresponder às expectativas que põem em nós. “Estamos todos num concurso: temos de ter uma carreira de sucesso, uma família feliz, uma casa bonita e a cheirar a baunilha. Somos altamente controladoras, fazemos tudo e não admitimos que ninguém nos possa ter nada a apontar. Se temos uma tendência natural de agradar os outros, esta escravidão é ainda maior”.

 

Para se libertar, Marta Gautier arranjou tempo: mantém o telemóvel desligado, só responde a emails dois dias por semana, tirou as crianças das atividades extra, para não sentir que era o chauffeur delas. Aprendeu a dizer não e hoje recusa imensos convites profissionais, mesmo que isso lhe cause, todos os dias, “medo de perder tudo o que tenho”.

Hoje tem tempo e, outra vez, descobriu que não chegava. E que há nova contradição a enfrentar.  

 

É preciso educar o cérebro

Todos nós já nos sentimos em paz, mesmo que por momentos, deixando-nos ficar a olhar um bebé concentrado a fazer alguma coisa, ou a ver pela janela a chuva a cair ou a passear pela praia num dia de inverno. Da mesma forma, também alguns de nós já terão sentido, após breves momentos de plenitude, uma impaciência, o regresso da mente aos assuntos banais, uma sensação de perda de tempo. “Então agora vou ficar para aqui a olhar para o bebé a tentar agarrar as migalhas?!”.

 

A experiência e reflexão de Marta Gautier dizem-lhe que o stress é viciante e o cérebro pede a sua dose. Que os neurónios tendem a ligar-se a certo tipo de emoções e permanecer a elas agarrados. “Quando estamos em paz, o cérebro pede conflito”, conclui. E por isso é preciso fazer todo um trabalho de “desviciar o cérebro, educá-lo”.

 

Nesta fase do seu caminho espiritual, Marta Gautier sente-se ainda “muito dentro do sistema”, e sempre em tentativa e erro. Mas continua a enfrentar o que a perturba. Recentemente tomou uma decisão: quer partilhar oficialmente o seu percurso de procura. Quer chamar para junto de si o público, desta vez não para rir mas para falar.

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