Projetos e pessoas extraordinárias que estão a mudar o mundo


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PRECIOSO PLÁSTICO

     Set 10, 2014

“Tentar melhorar o mundo fazendo coisas”

Licenciado em Design, Dave Hakkens apresenta-se como alguém que procura “melhorar o mundo fazendo coisas”. Ainda que o seu background seja como Designer Industrial, Dave tem vindo a ganhar alguma atenção pelas suas aventuras pessoais, através da construção de máquinas simples e revolucionárias e da criação de projetos cujo único propósito é o de mudar o mundo, ao seu próprio ritmo.

 

Como ele mesmo explica, “seja um vídeo inspirador, máquinas para reciclar plástico ou um novo conceito de telemóvel”, o que importa é a intenção de criar algo que consiga, de alguma forma, “empurrar o mundo numa direção melhor”.

 

 

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Imagem cortesia de Dave Hakkens.

 

 

Quem é, então, Dave? Como é que tudo começa?

 

Em 2009 Dave ganhou um certo interesse pelo sabão. É isso mesmo, um pedaço de sabão que usamos comumente para lavar as mãos. No entanto, ao que parece já não o usamos com tanta regularidade. Pelo contrário, tem-se vindo a verificar o crescente uso de sabonete líquido que, na opinião de Dave, contém demasiados químicos – pelo menos alguns deles. Assim, Dave procurou alterar a forma do sabão normal, tornando-o mais atrativo e adaptável para que o pudéssemos voltar a usar com mais frequência.

 

“O bloco contém tamanhos diferentes para diferentes necessidades. Mãos sujas? Use um pedaço maior.”

 

 

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Imagem cortesia de Dave Hakkens.

 

 

No final, acabou por desenvolver um bloco de sabão que permite até 90 lavagens. Chama-se Breaksoap (sabão que parte) e quem o adquirir pode não apenas lavar as mãos em grande estilo mas também usufruir de um sabão natural, sem químicos.

 

Chegado o ano de 2010, Dave decidiu dar início ao que chama de Handmade for the industry (feito à mão para a indústria), alterando a forma como se fazem as fichas e tomadas. Uma tomada comum é normalmente grande e ocupa algum espaço, porém o que mais lhe incomodava era a falta de características artesanais na produção destes objetos. Assim criou The Sharing Plug (ficha partilhada), combinando técnicas antigas com novas tecnologias, como a impressão 3D. Ao fazê-lo Dave conseguiu dar um traço mais artesanal a um objeto feito em série. Este projeto nasce de um evidente interesse no design do produto, muito à semelhança do primeiro, no entanto mostra uma preocupação entre a combinação de técnicas antigas e novas e uma preocupação para com o conhecimento e tradição envolvidos na construção desses objectos – como as coisas costumavam ser feitas.

 

Em 2012, por sua vez, Dave começa a desenvolver um gosto crescente pelas máquinas e é aqui que os seus pequenos projetos começam a ganhar maior relevância. Tudo começa com uma máquina que produz óleos naturais movida pelo vento. Assim, através de recursos naturais, tal como sementes e vento, começa a produzir diferentes tipos de óleo puro – a pureza do óleo advém do facto de não se recorrer ao uso de temperatura na sua produção. 

 

No entanto, o grande passo dado chega no ano que se segue, em 2013, quando este jovem decide combater o desperdício.

 

 

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Imagem cortesia de Dave Hakkens.

 

 

“O plástico é um dos materiais mais preciosos no planeta Terra. É leve, forte, fácil de manusear e óptimo de reciclar. No entanto, é visto como algo descartável e sem qualquer valor material, é barato, produzido em quantidades enormes e para o mundo inteiro. De todo o plástico que usamos apenas 10% é reciclado.”

 

De acordo com Dave, o plástico está por toda a parte. Ainda assim, pode facilmente ser reciclado e isso pode ser feito junto das comunidades, basta apenas separá-lo e transformá-lo em novas coisas. Se é assim tão simples porque não reciclamos mais? Por que motivo reciclamos apenas uma pequena, pequena, parte de todo o desperdício que criamos? Assim pensei, e assim Dave deve ter pensado também.

 

De forma a que possa perceber o processo por que passou Dave, desde a sua ideia inicial até à sua materialização, vamos dar-lhe as premissas essenciais:

 

Em primeiro lugar, Dave descobriu que reciclamos apenas 10% do plástico que produzimos. De seguida procurou perceber o porquê desta realidade e deparou-se com a constatação de que o ciclo do plástico é algo bastante complexo – há vários tipos de plástico, muito embora os produtos se possam afigurar semelhantes. Uma outra descoberta que fez foi a de que as máquinas que produzem plástico, embora muito rápidas e eficazes, são bastante dispendiosas – podem chegar ao valor de uma casa – e as fábricas não querem que nelas se use plástico reciclado:

 

“Eu fui a várias empresas e apercebi-me de que as máquinas usadas na criação de produtos feitos com plástico são extremamente caras, muito precisas e eficientes, e [os operários] não querem usar plástico reciclado porque não é puro e pode danificá-las ou atrasar o ritmo da produção.”

 

Após ter adquirido toda esta informação tratava-se apenas do que faria com ela, como poderia ele alterar esta realidade – ainda que a uma escala pequena. Dave começou por fazer as suas próprias máquinas, de forma a reciclar o seu próprio plástico com os seus próprios recursos. Mas como? Ele responde com apenas quatro palavras: Extrusion (Extrusão); Injection (Injeção); Rotational (Molde Rotatório); and Shredder (o que se pode traduzir por algo que desfaz, que destrói).

 

O processo a que chama Extrusion remete para a extração de fios de plástico, formas ou filamentos para impressoras 3D, do plástico despedaçado. Isto é possível devido ao tubo que prensa os pedaços de plástico e ao calor que os derrete durante o processo. No final obtém-se uma linha moldável de plástico que pode ser ajustada. Ao chegar à fase Injection é quando se começa a moldar o plástico para que se venha a tornar em novos objetos. A máquina criada por Dave é, de acordo com o criador, mais lenta que as usadas nas fábricas mas ainda assim é capaz de gerar um produto de dois em dois minutos. Após estes dois passos é necessário aquecer o molde numa outra máquina, feita através de um forno antigo que pode chegar aos 360 graus. Isto é o que chama de Rotational Molding. Por fim, mas não menos importante, será precisa essa máquina destruidora que transforma os produtos em pequenos pedaços de plástico de forma a que se possam concretizar os passos anteriores. Sem ela não será possível modificar o plástico.

 

Por esta altura deve estar a sentir-se algo desencorajado ou pelo menos a pensar “onde vou eu encontrar estas máquinas?” Dave não só as criou como também as disponibilizou online para que cada um possa construi-las em casa.

 

 

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Objetos feitos de plástico reciclado. Imagem cortesia de Dave Hakkens.

 

 

“O nosso objectivo é desenvolver a maquinaria em conjunto e partilhá-la online. Nós queremos que as pessoas por todo o mundo possam descarregar os nossos designs, construir estas máquinas e começar um centro de reciclagem comunitário. Nestes centros, o plástico local é recolhido e transformado em novos produtos, o que torna possível a transformação de resíduos locais de plástico em novos objetos.”

 

Isto seria o mesmo que reciclar em conjunto nas comunidades de cada um. Assim, se se sentir encorajado pelo exemplo de Dave, pode começar por uma ação muito simples: a recolha do plástico indesejado do vizinho.

 

Inspirado pela maquinaria de Dave, na Alemanha, Alex desenhou a sua própria máquina, que servia melhor as suas necessidades. “Para desenhar o protótipo das tampas e da cortiça eu precisava da minha própria máquina.” E assim criou uma garrafa reutilizável, feita inteiramente de materiais reciclados, inspirada na máquina de injeção de Dave.

 

“Eu fiz o upload do video online e nas primeiras 24 horas tinha um milhão de visualizações no YouTube.”

 

 

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Objects made of recycled plastic. Image courtesy of Dave Hakkens.

 

 

A sua preocupação com o desperdício manteve-se presente na sua vida diária no entanto foi-se metamorfoseando num tipo de desperdício tecnológico: o lixo electrónico. Enquanto terminava a sua licenciatura deu início a um projeto que despertou a atenção pública.

 

Se considerar que os dispositivos electrónicos não são pensados para durar, há uma quantidade enorme de telefones – e outros do género – a serem deitados fora todos os dias. Normalmente o problema com estes aparelhos encontra-se em apenas uma coisa mas como está tudo conectado acabamos por deitar tudo fora, sem aproveitarmos o que ainda está operacional. O que fez, então, Dave? Projetou um outro tipo de telemóvel, um que é feito de blocos – quase como se tratasse de uma construção em legos.

 

 

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 Imagem cortesia de Dave Hakkens.

 

 

Phoneblocks, como se chama a iniciativa, está de alguma forma a mudar os telemóveis e permite também que estes sejam personalizados por cada utilizador. Além disto, pode mudar a nossa percepção do que que é descartável e do que não é. Com este tipo de telemóvel se apreciar tirar fotografias pode fazer um upgrade da sua câmara; se a sua bateria morrer basta apenas substituí-la por uma nova; se a coluna estiver com problemas só precisa substituir esse bloco. É tão simples quanto parece. “Assim não precisa deitar fora o telemóvel; mantém o que está bom.”

 

Importa referir que isto é ainda apenas uma ideia. Ainda assim, é uma ideia que já chegou a milhões e que lhe deu o prémio Design Social do Ano.

 

Por vezes basta apenas ter interesse. Foi o que bastou para Dave.

 

 

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