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EDUCAÇÃO RELACIONAL

Written by Will Scott      Set 10, 2016

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A Educação Holística e baseada na Natureza de que os nossos tempos precisam.

Ontem conheci uma mulher cuja grande paixão na vida é criar vestuário 100% sustentável só com base nos recursos naturais têxteis da sua região (a que se dá o nome de Fibershed). Ela é uma revolucionária. Produz e obtém a matéria-prima, produz e obtém o corante para a cor, fia e tece e transforma o fio numa peça de roupa que depois veste com orgulho.

 

Nessa conversa, ela disse-me que agora o seu desafio é fazê-lo “bem”, isto é, de uma forma que seja economicamente rentável, que acione a colaboração de outros produtores locais e artesãos, crie emprego e um produto que a população local possa adquirir, para que possa envergar a sua biorregião do mesmo modo que os apreciadores da gastronomia local gostam de comer a sua comida. “É difícil”, diz ela, “quando ainda não existe uma estrutura capaz de criar uma peça de vestuário que seja ao mesmo tempo bonita e típica.”

 

Naquele momento apercebi-me de que ela está a fazer pela confeção de vestuário aquilo que os meus colegas e eu estamos a fazer pela educação. Na Weaving Earth trabalhamos para criar um ensino experiencial e prático que ligue as pessoas ao entrelaçado das suas paisagens, que una muitos fios da comunidade local, que ofereça algo regenerador às pessoas e ao local, que tenha um impacto salutar e de longa duração, que seja acolhedor, criativo, holístico e em última análise produza algo belo que as pessoas queiram com entusiasmo levar para o Mundo. E nós enfrentamos desafios similares: vivemos numa era de transição, e enquanto organização que pretende educar para os nossos tempos, as estruturas que entendem e suportam o que fazemos ainda não estão instituídas. Estamos a construir a fundação e a debruçar-nos sobre ela ao mesmo tempo.

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Vivemos uma era dinâmica. Alguns dizem que os desafios que enfrentamos agora são maiores em escala e impacto que quaisquer outros que tenhamos enfrentado na história da nossa espécie. Alguns dizem que no meio dos obstáculos residem oportunidades e possibilidades igualmente sem precedentes. Uma coisa é certa: já não precisamos de citar uma pesquisa extensa para explicar que vivemos numa era instável e incerta. Uma preocupação genuína com o futuro da nossa espécie está a surgir em todas as áreas do conhecimento. Muitos de nós vivemos numa corrente subterrânea de ansiedade em relação a circunstâncias que não conseguimos dominar totalmente. Quer optemos ou não por aceitar isso, sabemos perfeitamente que algo está desequilibrado.  

 

“Koyaanisqatsi” é uma palavra em Diné (Navajo) que importa considerar no mundo moderno. Pode traduzir-se por “vida em desequilíbrio”. Os sintomas de desequilíbrio são omnipresentes. As estruturas das quais dependemos durante séculos evidenciam uma instabilidade crescente: dos governos às economias, às ecologias – os sistemas estão a reagir a essa “vida em desequilíbrio”. Talvez os nossos tempos venham a ser definidos em parte pela urgência sentida em olhar para a fonte subjacente a estes sintomas. Explorar a fonte pode ser assustador, porque nos leva ao terreno obscuro e intangível dos valores culturais e das visões do Mundo. Contudo é para onde temos de ir, porque tratar dos sintomas isoladamente já provou ser ineficaz.

 

Escavar a visão do Mundo dominante da sociedade ocidental põe a nu uma velha falácia: a ideia de que os seres humanos estão separados da natureza. Numa palavra,  a doença chama-se desconexão (a ou crença nela): a desconexão em relação à natureza, à comunidade, e até expressão completa do eu. Agora, estudos interdisciplinares estão a unir-se a tradições sábias ancestrais de todo o Mundo para expor o bluff na perceção da desconexão – designando-o como principal culpado da vida em desequilíbrio.

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Quando percebemos algo como ”separado” ou “diferente”, podemos tratar esse algo de uma série de modos nocivos. Assim, a visão do Mundo baseada num falso senso de separação pode ter implicações graves em tudo o que lhe diz respeito. Do mesmo modo, temos de nos envolver pessoal e coletivamente ao nível dos valores e das visões do Mundo se queremos responder em pleno à situação que enfrentamos. Se continuarmos como até aqui, não tarda os nossos netos pedirão explicações que ninguém quererá dar. A desconexão não lhes está só a roubar ursos polares, glaciares e água potável – está também a deixar um legado de condições sanitárias e justiça social diminutas como parte da herança.

 

Então, como é que alguém pode mudar esta visão do Mundo? Dada a complexidade da situação, por onde devemos começar? Como devemos educar nestes nossos tempos?

 

Educar para o Mundo de hoje significa contrariar a perceção de desconexão com uma experiência palpável de conexão. O que requer que olhemos ao mesmo tempo para o futuro e o passado, para cultivar o melhor de que o Homem é capaz, e considerar os padrões nocivos que carregamos. Reformar os atuais sistemas educativos por si só não chega. Educar para os nossos tempos exige uma disposição corajosa para não depender em demasia das instituições que estão a provocar o desequilíbrio, mas em vez disso de colocar a nossa confiança no rio sob o rio; debruçar-nos sobre os sistemas naturais que sempre nos apoiaram. Tal como os sistemas naturais, a educação deve encorajar a adaptabilidade inteligente e a improvisação, para que estejamos preparados para pisar terrenos incertos. Essencialmente temos de aprender a viver em equilíbrio.

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Felizmente, não temos de procurar muito longe para encontrar o maior professor do equilíbrio e da conexão de que alguma vez venhamos a precisar. De facto, não temos de procurar em lado algum, em vez disso, tudo o que precisamos de ver está aqui: a Terra e o Cosmos são os maiores instrutores, girando sempre à nossa volta e ressurgindo de dentro. A próxima boa notícia: a espécie humana é boa a estabelecer ligações. Estamos equipados para elas, e alguns milhares de anos em direção à separação não desfizeram os milhões de anos de coevolução interrelacionada que os precederam. (1)

 

Um leque de estudos revela quer os efeitos positivos do tempo passado ao ar livre quer o sucesso que os modelos experienciais e baseados na natureza tem no desenvolvimento de uma população criativa, conectada e diversamente inteligente. (2) Esta “nova” pesquisa demonstra os benefícios sociais, cognitivos, psicológicos e físicos na pessoas com muita exposição à natureza. O contacto com a natureza afeta diretamente o sistema operativo original que é a nossa herança evolutiva, o nosso modelo de totalidade – e é ao conhecer a totalidade que ficamos a conhecer a conexão. Despertar o modelo da nossa natureza humana inata não implica conseguir algo novo, mas aceder a algo que já lá estava de alguma forma.

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Contudo, nem todos os tipos de exposição ao mundo natural são criados da mesma forma. Muita da “aprendizagem ao livre” não se equipara necessariamente a um redespertar do nosso sistema operativo original. (3) É fácil passar um dia inteiro lá fora a interagir com o mundo natural sem que exista uma verdadeira conexão. Tomemos uma aula ao ar livre como exemplo: ao fim de um dia atarefado de medições e recolha de dados, podemos ficar a saber mais sobre um lugar, mas não nos sentirmos mais conectados com ele. Se estivermos sempre a fazer algo ao ar livre – seja um estudo académico, um passeio de bicicleta de montanha ou montanhismo – sentimos falta de algo subtil e de grande importância. Sentimos falta da oportunidade de nos conectarmos e relacionarmos. Isso não é o mesmo que dizer que não acontece qualquer conexão. Lembre-se de que a conexão é a nossa pedra basilar e muitas coisas a podem despertar em nós, mas certos tipos de experiências são concebidos para a encorajar.

 

Por exemplo, os métodos de mentoring através de profunda conexão com a natureza revelam que aquele tempo prolongado, não-estruturado ao ar livre é indispensável na abertura das portas da conexão. Algo único acontece na hora de brincar, interagir, explorar, imaginar, trepar, cavar, estar em silêncio, ser claro, ficar entediado, deixar de o estar, sujar-se, e mais importante, conhecer o seu lugar. As experiências táteis, sensoriais e incorporadas com o mundo natural são um ingrediente essencial na educação para a conexão, assim como a presença de agentes capazes. Experiência incorporada não significa que a aprendizagem cognitiva fique de fora. Pelo contrário, “o conhecimento está na ação”. Aprender o que está vinculado à experiência tem um impacto duradouro, porque quando a informação é seguida de conexão, ela permanece.

 

A educação baseada na natureza não pressupõe apenas passar tempo ao ar livre. Significa seguir ciclos de aprendizagem naturais; estruturar aulas em consonância com os ciclos do dia, as estações, o tempo e as complexidades de cada lugar em particular; recorrer à sabedoria milenar das culturas-agentes; cultivar a curiosidade e a paixão para acionar o amor inato de aprender; permitir que o génio em cada um desperte e evolua em sintonia com o resto do mundo; deixar que os valores naturais da interdependência e da cooperação emerjam, não como regras ensinadas, mas como ideais coerentes com uma vida saudável. Uma educação para os nossos tempos encoraja a capacidade inata de conexão mais do que os comportamentos aprendidos de separação.

 

A aprendizagem holística foca-se tanto no desenvolvimento de uma perceção madura do eu como na transmissão de informação e de técnicas. Que os talentos ou as competências as pessoas procuram adquirir hão de seguir o curso natural do seu impulso intrínseco. Imagine uma educação que vise despertar as pessoas para o nicho no seio da ecologia do planeta, promovendo uma identidade baseada num sentido de pertença à comunidade e à biosfera, mais do que na alienação. Deste sentido de pertença emergiria a oportunidade de cada um de nós desenvolver os seus dons, paixões e lugares únicos no Mundo. A partir da totalidade, a criatividade e o génio humanos podem ser acedidos, e é através do génio criativo baseado na pertença que soluções apropriadas e inovações surgem. O objetivo: promover um desenvolvimento holístico de indivíduos e comunidades capaz de responder ao mundo complexo de hoje de uma forma inteligente, integrada e interdependente.

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Então, o que é que a educação para a conexão aparenta ser na prática? Na Weaving Earth, acabámos por lhe chamar “Educação Relacional”, oferendo atividades, exercícios, práticas, técnicas, conteúdos, experiências e todo um ambiente de aprendizagem desenhado para abrir e flexionar a capacidade humana para criar relações autênticas e incorporadas com tudo o que nos rodeia. Isto não é o que se faz atualmente, e poderia não o entender como “educação” se o presenciasse. Por exemplo, nos nossos programas para adultos, fazemos muitos jogos, jogos que nos obrigam a sair das nossas mentes e dos nossos corpos. Estudamos os trilhos e a sinalética animais, ouvimos a língua dos pássaros, e praticamos a melhoria da consciência sensorial, tudo isso nos ajudará a colocar o modelo para a conexão em linha. Aprendemos sobre os alimentos selvagens na nossa zona, estudamos as plantas, preparamos medicamentos, fazemos fogo sem fósforos, construímos abrigos, e aprendemos uma série de outras técnicas de sobrevivência e ofícios. A contradição das técnicas de “sobrevivência” é que elas fazem muito mais do que dotar as pessoas da habilidade de viver ao ar livre, elas relacionam-nos de um modo profundo com os lugares a que pertencemos e incutem-nos uma sensação de liberdade de estar em casa na Terra. Hoje em dia, “casa na Terra” também representa contextos urbanos e suburbanos, por isso trabalhamos com técnicas de permacultura aplicada, redesenhando as povoações de maneira a refletirem um sentido de respeito e reciprocidade em relação ao meio ambiente. Praticamos competências comunitárias: comunicação, escuta, facilitação, pacificação e planeamos a regeneração cultural. Também trilhamos a paisagem interior: trazendo à consciência os padrões institucionalizados que herdámos coletivamente e os obstáculos internos que nos bloqueiam individualmente. Esta pessoa no seu todo, comunidade no seu todo, abordagem ao planeta no seu todo permite à conexão espalhar as suas raízes de uma forma sólida, integrada, tomando lentamente o lugar da perceção da desconexão a partir do interior. É profundo, divertido, prático, e saudável – para todas as nossas relações.

 

Nenhum caminho único ou especialista será capaz de responder em pleno ao mundo de hoje. A Educação Relacional não é senão um. Precisamos de pensadores e “sentidores” também; generalistas, cientistas, engenheiros sociais, jardineiros, especialistas em relações humanas, organizadores de comunidades, pais, artistas, místicos, líderes, inovadores, palhaços e mais. Os problemas sistémicos, interrelacionados, requerem uma resposta sistémica e holística. De modo a darem respostas efetivas, precisamos de uma educação que incentive e anime o pleno potencial do nosso génio inato enquanto espécie, o que não é senão uma expressão do nosso mundo diversamente belo. O que foi fragmentado deve voltar a estar reunido, então devemos relembrar-nos de que somos a natureza a responder.

 

Para saber mais sobre Will Scott, clique aqui.

 

Bibliografia:

1)      Glendinning, 1995.

2)      Bell et al. 2008; Cottrell & Raadik-Cottrell, 2010; Hartig et al. 1991, 2003; Hass, McGown & Young, 2008; Kahn, 1997, 1999; Kaplan and Kaplan 1989; Kolan & Poleman, 2009; Louv, 2005; Merriam & Sek Kim, 2008; Orr, 1994; Priest, 2007; Sweatman & Warner, 2009; Ulrich 1981; Van den Berg et al. 2007.

3)      Sobel, 2008; Stuckey, 2012; Young et al, 2010.

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