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A CORAGEM DE SETE MULHERES. LUTA! LIBERDADE! JUSTIÇA!

     Jun 17, 2013

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Como uma mulher, sozinha, lutou contra a violência doméstica. Texto de Charlotte Goodwin

Seven Women, Sete Mulheres, é uma peça-documentário que segue as viagens pessoais de sete mulheres inspiradoras de todo o mundo. É também uma colaboração de sete dramaturgas de renome que, individualmente, entrevistaram e construíram a sua parte da peça em torno de cada uma das estórias de vida que lhes foram contadas. Cada uma das mulheres em que se foca a peça, todas elas membros da organização Vital Voices Global Leadership Network, teve de ultrapassar obstáculos incríveis na sua luta pelo reconhecimento humano e político dos direitos da mulher nos seus países de origem. A diversidade e o alcance que cada história destas mulheres tem, por permitirem que nos identifiquemos com elas, significa que nós, enquanto audiência, somos levados numa viagem pelo mundo e somos forçados a entrar em cada uma das batalhas travadas.

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Um das mulheres que serviu de inspiração para o documentário, e em quem a peça é baseada, é a russa Marina Pisklakova-Parker que, em 1993, fundou a primeira linha telefónica no país para vítimas de violência doméstica. A violência doméstica é, já há muitos anos, um enorme problema para as mulheres na Rússia. Estatísticas mostram que, mesmo hoje, na Federação Russa, uma em quatro famílias experiencia violência doméstica e, de acordo com a Amnistia Internacional, cerca de 36,000 mulheres sofrem de abusos pelos maridos ou parceiros por dia. Estes dados chocantes são apenas a ponta do iceberg uma vez que se acredita ser muito mais profunda a gravidade da situação, devido a advogados e polícias negligentes que, em muitos casos, acreditam que a violência doméstica não é digna de intervenção por se tratar de um assunto familiar privado.

 

 Marina Pisklakova-Parker © Eddie Adams

 

 

Marina enfrentou, assim, barreiras tremendas ao estabelecer a linha telefónica contra a violência doméstica, que acabou por se tornar o único refúgio para estas mulheres a viverem em terror nas suas própria casas. Nessa altura (1993), os homens que batessem ou violassem as suas mulheres ou parceiras era provável que não fossem alvos de processos judiciais e frequentemente a melhor opção da vítima era a de permanecer calada e (con)viver com essa violência e outras formas de abuso não consideradas crime.

 

As reformas económicas que seguiram o fim da era soviética na Rússia exacerbaram os problemas de violência doméstica no país, uma vez que levaram a mudanças na dinâmica familiar. Não existiam abrigos para os mais vulneráveis, tão pouco leis a punirem abusos de qualquer tipo, e o acompanhamento e ajuda a estas vítimas eram inexistentes. Contudo, com o estabelecimento da linha, Marina Pisklakova-Parker providenciou um rasgo de esperança para inúmeras mulheres a viver em pânico confinadas a quatro paredes.

 

A linha telefónica de Marina foi a salvação de muitas mulheres. Desde o primeiro dia em que começou a funcionar que o telefone não parou, dando voz aos gritos desesperados e pedidos de ajuda de incontáveis russas que não tinham a quem mais recorrer. Quase sozinha Marina dava forma à guerra contra a violência doméstica na Rússia, expandindo a sua linha para uma rede de centros de apoio e aconselhamento por todo o país (que chegou a servir cerca de 100,000 mulheres nesse ano). Em 1999 associou-se à Vital Voices (Vozes Vitais) e recebeu treino em gestão e liderança, bem como acesso a recursos necessários para a expansão da sua rede de ajuda. Marina tem sido uma mulher de valor inestimável para a Rússia, removendo o cobertor negro do silêncio ensurdecedor que caiu pesado sobre o país e curando o desespero que estava por baixo do mesmo.

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A sua estória extraordinária foi documentada por Paula Cizmar, galardoada argumentista americana. Reflectida no palco está a solidão e a isolação que Marina experienciou ao dar início a esta difícil viagem em direcção ao reconhecimento dos direitos da mulher e ao fim da violência doméstica na Rússia. A campanha Seven Women e Vital Voices contribuiu para a elevação e divulgação do caso de Marina Pisklakova-Parker e para envolver activamente a população mundial na luta contra a desigualdade. Marina é uma inspiração. Uma voz, a dada altura suprimida, que se levantou contra todas as expectativas e que está a encorajar a uma colectividade internacional das mulheres na sua luta pelos seus direitos e contra a violência.

 

Sete Mulheres é uma peça que desafia o público a participar e a agir de acordo com os seus sentimentos por oposição a ver passivamente os eventos representados emocionalmente no palco. Maria Ripenberg diz “o que é assustador é que Sete Mulheres representa o destino de tantas outras espalhadas pelo mundo. Ainda assim, a esperança está na força das mulheres, na sua coragem e na sua irreprimível teimosia” (Crítica Uppsala, Suécia). É verdade que a universalidade das experiências das mulheres, embora chocantes, é a força da peça, ajudando o seu objectivo de criar um entendimento internacional entre as mulheres e, eventualmente, eliminar a violência doméstica e a desigualdade.

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