Projetos e pessoas extraordinárias que estão a mudar o mundo


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INICIATIVAS DE TRANSIÇÃO, UMA MUDANÇA ENTRE NÓS

     Out 18, 2018

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Como podemos avançar no sentido de alcançar um mundo melhor.

“Todos nós precisamos de transição, de uma forma ou de outra. Mas precisamos de orientação.” – Membro anónimo da Iniciativa de Transição

 

Num período em que as sociedades estão cada vez mais vulneráveis face às problemáticas energéticas, ambientais, sociais e económicas, o Modelo de Transição defende que é localmente que se deve agir, através da criação de uma nova visão de futuro e tornando as comunidades mais humanas, sustentáveis e resilientes.

 

No fundo, a ideia subjacente é a de que planear e agir com antecedência suficiente, utilizando a criatividade e a cooperação para desencadear o génio das comunidades, pode levar à edificação de um futuro mais gratificante, enriquecedor e amigo da Terra.

 

Hoje, já existem Iniciativas de Transição espalhadas por milhares de comunidades de todo o mundo. Estas iniciaram os seus projectos nas áreas da alimentação, educação, energia, construção, resíduos, arte, entre outras, de forma a dar respostas locais às dificuldades económicas, alterações climáticas globais e diminuição dos recursos energéticos baratos.

 

 Jim WilemanRob Hopkins © Jim Wileman

 

 

A Iniciativa de Transição, Tansition Iniciative, teve início há sete anos atrás, quando Rob Hopinks (autor de Transition Handbook, co-fundador da rede Transition Network e de Transition Town Totnes) sentiu a necessidade de procurar lugares ou organizações que usassem os princípios da permacultura e formas de pensar sustentáveis. Como não encontrou na altura organismos enquadrados nestes princípios, Rob Hopinks decidiu improvisar um plano-até-20-anos-no-futuro, estabelecendo “o que” poderia ser melhorado e “como” partindo da sua realidade no momento. Este pequeno exercício académico é, na verdade, o começo de algo mais complexo e complicado de definir, uma vez que a Iniciativa de Transição pode ser encarada como uma forma de se percepcionar a vida, uma forma de a viver, quando inseridos numa realidade comunitária.

 

Existem diferentes formas de conduzir esta experiência porém cada grupo de entusiastas é estimulado a agir conforme entender e de acordo com o que for melhor para a sua comunidade. Ainda assim, Rob Hopinks identifica pelo menos quatro etapas comuns a todos os que são parte constituinte das Iniciativas de Transição.

 

Começar, starting out, será precisamente o PRIMEIRO PASSO a tomar. Nesta fase inicial as pessoas são motivadas a encontrar outras cujas preocupações sejam semelhantes às do projecto e que queiram de fato agir em conformidade com as necessidades identificadas. De acordo com o co-fundador da rede Transition Network, o ato de formar grupos é a semente de todo o processo, uma vez que une as pessoas e origina o debate sobre as suas necessidades locais e o necessário para proceder às devidas melhorias.

 

Não há uma regra estabelecida no que respeita ao recrutamento de possíveis colegas, no entanto um método comum é o de bater diretamente nas portas das pessoas, como explica Joel Prittie. Ele começou a bater à porta por motivos profissionais até que, com a confiança que tinha na Iniciativa de Transição, decidiu começar a fazê-lo com esse propósito. Foi assim que conheceu Ali Mohamed que, apesar de nunca ter feito parte de um movimento com este, se interessou pelo discurso do Joel sobre o local onde ambos moravam (Moss Side, Manchester, RU). Mohamed acredita também que estabelecer ligações com os vizinhos é fundamental pois eles podem ajudar em caso de necessidade. Uma comunidade bem conectada é uma comunidade unida e protegida.

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Joel bateu em mais de 14200 portas, rua por rua, recrutando vizinhos e estranhos interessados no projecto. Esta forma curiosa e dedicada de abordar as pessoas resultou em 237 novos contactos para a lista da Iniciativa de Transição de Moss Side. Outros tentaram diferentes abordagens, tais como reuniões em espaços públicos ou nas próprias casas, e no site oficial da rede estão disponíveis algumas noções sobre como comunicar o projecto pelas vizinhanças. Há, ainda, quem prefira não procurar pessoas e esperar que elas venham ter com eles. No entanto, quando este agrupamento de pessoas começa a tornar-se em algo mais sério existe a possibilidade de se tornar oficial. Isto é, após várias reuniões (pelo menos 7) e uma certa segurança no compromisso dos membros é possível aceder ao site do movimento e perceber quais os procedimentos necessários para que o grupo possa de fato pertencer à Iniciativa de Transição. Isto remete, na verdade, para o SEGUNDO PASSO, o do aprofundamento (deepening): o rito de se tornar uma organização por oposição a apenas um grupo de pessoas.

 

Depois destes processos morosos, que exigem bastante dedicação por parte dos intervenientes, segue-se o caminho natural de se estabelecerem ligações ainda mais fortes e profundas. Trata-se de interiorizar ainda mais o projecto dentro das comunidades e de tentar alcançar as autoridades locais. Chega-se, assim, ao TERCEIRO PASSO: encontrar os alicerces certos. De forma a que se consiga uma comunidade próspera, onde as pessoas se sintam incluídas e participativas, é também desejável que se tenha o apoio das suas instituições locais. O esforço individual é importante, inserido na lógica de que cada pessoa pode ser o seu próprio modelo a seguir e fazer as mudanças que deseja ver no mundo, no entanto este esforço pode ser reforçado e atingir uma representatividade maior se aliado a estes alicerces da comunidade.

 

Umberto Fonda, responsável pelo projecto Energia sustentável e redução de CO2 nas comunidades locais (parte integrante da Iniciativa de Transição italiana), é um caso exemplificativo de como políticos e poderes institucionais, por vezes considerados algo distantes, podem construir fortes alianças com as pessoas que representam.

 

 

 

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Membros da Iniciativa de Transição Kensal to Kilburn © Brent & Kilburn Times

 

 

Um outro exemplo de como abordagens mais pequenas se podem encontrar a meio caminho com determinadas instituições é o caso da plataforma Kilburn (RU), onde a persistência de Michael Stuart e Sanchia Dunn com as autoridades responsáveis permitiu a plantação de fruta e legumes à saída dos comboios. Assim, num local tão concorrido, onde cerca de 1200 pessoas passam todos os dias, surgiu o que se acredita ser a primeira e única estação londrina com pequenas quintas nas plataformas. Contudo, a ideia de plantar alimentos na estação não foi bem recebida numa aproximação inicial e só se tornou realidade devido à determinação de quem a sonhou. Tudo depende de quem ou que instituição se contacta e na perseverança dos que tentam estabelecer esse contato em primeiro lugar. 

 

Um número considerável de iniciativas principiantes está ligado à alimentação. Rob Hopkins acredita que isto está relacionado com o fato de não serem necessárias quantias notórias de dinheiro ou grandes burocracias. Dan McTierman é co-fundador da Handmade Bakery (padaria fabrico próprio, artesanal), um projecto alimentar que pode ser entendido como um empreendimento social ou uma cooperativa. Neste caso particular foi-lhe permitido encontrar famílias dispostas a pagar adiantado pelo seu pão conseguindo desta forma alguns empréstimos dos seus clientes regulares, que viram posteriormente os seus juros pagos em pão.

 

Heal the soil (curar a terra) foi a primeira Iniciativa de Transição na India. As suas principais preocupações remetem para a crença de que todos têm o direito a alimentos de qualidade. De forma a crescer, mas mantendo certos aspectos rurais das aldeias indianas, procederam à implementação de pequenos jardins e práticas mais amigas do ambiente.

 

A mercearia Green Valley (Green Valley Grocer) é outro exemplo de iniciativas com ligação aos produtos alimentares. É conhecida por ser uma mercearia local, a funcionar desde a II Guerra Mundial, que esteve prestes a fechar por falta de clientes. Um dos co-fundadores, Graham Mitchell, decidiu tomar as rédeas da loja como se se tratasse de um negócio comunitário. O propósito foi o de reconquistar a confiança das pessoas para que voltassem a frequentar a mercearia, em detrimentos dos supermercados. A forma de o fazer passou por tornar cada cliente dono de parte da loja. As pessoas vendem produtos regionais de cultivo próprio para a loja, acabando por lá fazer as suas compras, reciclando assim o dinheiro – como explica um comprador/dono.

 

Este é, na verdade, um dos componentes do QUARTO PASSO identificado por Rob Hopkins, building. Construir, em português, é a última parte do processo e remete para o pensamento estratégico relativamente às necessidades locais – passar de uma ideia inicial para algo concreto.

 

 

 

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Um outro impulso ao nível de infra-estruturas locais remete para a criação de empresas de energia. Chris Rowland, da empresa OVESCO (Ouse Valley Energy Services Company), é um caso representativo desta tendência no Reino Unido. A OVESCO não está sozinha, Fujino Power Company é outra empresa de energia renovável (painéis solares) que passou a servir as necessidades locais após um desastre natural.

 

“Nestes meses difíceis após o terremoto e tsunami de 11 de março tem sido o momento para reflexão e uma oportunidade para ponderar sobre o que o futuro reserva para o Japão. Algumas pistas para o que parece ser um futuro melhor podem ser encontradas apenas a uma curta viagem de combóio de Tóquio, num lugar chamado Fujino”. – Brendan Barrett, da Universidade das Nações Unidas

 

Não é só nos bons momentos que as pessoas tendem a juntar-se pois é nos momentos mais difíceis que mais beneficiam da união. Christchurch, Nova Zelândia, à semelhança do que aconteceu no Japão, é o caso de uma cidade que sofreu bastantes estragos decorrentes de calamidades naturais e ainda assim as pessoas conseguiram reinventar a sua comunidade. “O verdadeiro coração de uma comunidade é as suas pessoas” – garante Julie Lee, coordenadora do projecto Time Banc (Banco do Tempo).

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O desafio é conseguir imaginar a mudança numa escala pequena. No entanto, se esse desafio for suplantado será mais fácil a cada individuo digeri-la, de acordo com o co-fundador da rede Transition Network. Essa é uma das razões porque cada grupo, de cada localidade, tem objetivos diferentes para necessidades diferentes. Para a pequena aldeia portuguesa, Aldeia das Amoreiras, o principal propósito é o de continuar a sonhar pois foi desta habilidade que resultou a união dos seus habitantes numa primeira instância. Assim se pintaram casas e assim se criaram mercados na aldeia. No Brasil, por sua vez, as Iniciativas de Transição representam prioritariamente a preocupação com a educação e as espécies em risco de extinção. Este tipo de coesão social localizada é, acredita-se, a responsável por uma coesão a nível global.

 

Para Rob Hopkins e Sophy Banks, representante da rede Transition Network,é ainda importanteque as pessoas compreendam que não é preciso ser-se uma organização para começar a implementar a mudança nos bairros e comunidades. Whitney Avenue Urban Farm (Pensilvânia, EUA) é o exemplo apresentado no documentário realizado pela Iniciativa de Transição: In Transition 2.0: a story of resilience and hope in extraordinary times. O co-fundador Chris Condello começou por alterar a mentalidade das pessoas do subúrbio, para orgulho de alguns dos habitantes como Lorna Tayler, que fala com emoção do seu novo bairro.

 

Ainda que algumas mudanças possam e devam ocorrer a um nível individual, a força vem do ajuntamento, da união – algo que tem sido mencionado ao longo do presente artigo. As comunidades são encorajadas, pelos sonhadores/criadores da Iniciativa de Transição, a ter espaços onde os seus membros se possam juntar, celebrar e apreciar o trabalho que as suas comunidades vão desenvolvendo. Espaços onde todos têm o direito de falar e, mais relevante ainda, têm o direito a serem ouvidos. Contudo, e apesar do promovido pelos co-fundadores da iniciativa, têm sido registados alguns conflitos dentro do movimento, dividido por entre os que desejam agir com mais prontidão e, consequentemente, procuram resultados mais rápidos e aqueles que escolhem esperar e planificar estratégias mais eficientes a longo prazo.

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A Iniciativa de Transição de Lancaster, por exemplo, não correu pelo melhor. Há sempre conflitos ou diferenças e organizações inteiras podem perecer se não forem capazes de lidar com esta realidade. Chris Hart explica a sua má experiência:

 

“Se for absolutamente sincero, foi horrível (…) teve um fim absolutamente horrível. Deus! Se isto são as pessoas a juntarem-se para tentar salvar o mundo então tirem-me deste planeta”

 

Existe, ainda, um conjunto de críticas proferidas por alguns organismos e grandes empresas que não beneficiam com este tipo de consciência social. De fato, algumas destas iniciativas individuais podem levar a um questionamento de certas agendas políticas e económicas.

 

Em jeito de conclusão, e de forma a colocar a Iniciativa de Transição de uma forma simples e sucinta, pode dizer-se que o movimento é a capacidade de imaginar o melhor futuro possível e tentar perceber como o alcançar dentro de um esforço comunitário. Este movimento complexo começa, no entanto, com um propósito mais simpático, o da vontade e o desejo de poder contribuir para um futuro melhor. No entanto, existe a consciência de que a Iniciativa de Transição é uma experiência social e não uma certeza. Os seus membros e defensores admitem a possibilidade de que pose não resultar:

 

“A Iniciativa de Transição é uma experiência social a uma escala global. Não sabemos se resultará, o que sabemos é que se esperarmos pelos governantes será tarde demais. Se agirmos apenas enquanto indivíduos será insuficiente. Mas se agirmos enquanto comunidades poderá ser suficiente e mesmo a tempo.”

 

Mesmo com a possibilidade do falhanço, a incerteza e a dúvida, para Naresh Giangrande (co-fundador de Transition Town Totnes) “estamos perante um momento histórico de escolha – as nossas atitudes estão agora a afectar o futuro. O tempo [de agir] é já.”

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