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A PEREGRINAÇÃO SILENCIOSA DE JOHN FRANCIS A FAVOR DO AMBIENTE

Written by Amara Rose      Dez 22, 2014

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“Walking his talk”

Se prestarmos atenção, a graça da vida está em todas em coisas, como o pedagogo, artista e banjoísta John Francis seria o primeiro a admitir.

 

Na tarde nublada de primavera em que conheci o autor de Planetwalker: How to Change Your World One Step At A Time (Caminhante do Planeta: Como Mudar o Mundo um Passo de Cada Vez), na sua casa de campo em Point Reyes Station, na Califórnia, um grande camião entregava uma máquina de lavar e secar novinha em folha. No fluxo e refluxo da sua vida o homem que andou mais de 40 mil quilómetros ao longo de três décadas, acampando com frequência debaixo de pontes e em campos agrícolas, tornou-se no proprietário de uma moradia, com uma esposa, um filho de quatro anos e uma garagem para dois carros. Para Francis, esta foi a última mudança em toda uma vida de peregrinação dedicada a promover a governação da Terra, a consciencialização ambiental e a paz mundial, linhas interdependentes no novelo da vida.

 

Seguindo as pisadas inspiradoras de planetwalkers (Caminhantes do planeta) como Peace Pilgrim, Gandhi, e Satish Kumar, Francis empreendeu uma notável viagem espiritual em 1972 – sincronicamente, o mesmo ano em que as Nações Unidas criaram o Dia Mundial do Ambiente. Um ano após a chegada, ele renunciou à sua voz para descobrir uma linguagem mais profunda, além das palavras. Francis parou de falar no seu 27.º aniversário, a que os psicólogos chamam o fim da “era da invencibilidade”, e em que sentimos pela primeira vez a efemeridade da vida.

 

A rendição é um elemento fulcral na peregrinação, mas a maior rendição para Francis surgiu dezassete anos mais tarde, quando ele escolheu conscienciosamente voltar a entrar no mundo das palavras, confiando em si próprio o seu uso a partir de uma fonte rica de sabedoria interior. Voltou a intervir no 20.º aniversário do Dia da Terra, 22 de Abril de 1990, escolhendo essa data específica “para lembrar que agora vou falar em nome do ambiente.”

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Ponte Sobre Águas Revoltas

 

De certo modo, Francis renunciou à sua voz para a encontrar.

 

Investigador do espírito desde muito jovem, Francis frequentou a escola Católica e considerou seriamente ir para um mosteiro, “mas não conseguia imaginar o silêncio”, diz com um sorriso. Quando chegou à Califórnia a partir de Filadélfia, a sua terra-natal, em finais de 60, tinha acabou de desistir da universidade pela terceira vez.

 

Francis andava a estudar a vida e obra de Gandhi quando sentiu um chamamento interior, numa explosão supersónica. Dois barris de petróleo colidiram, derramando mais de 3 mil metros cúbicos de crude na Baía de São Francisco. Esta devastação, uma vez estendida ao meio aquático, tocou no mais fundo do ser deste Pisciano sensível. O que podia ele fazer em relação a isso? Uma ideia começou a fervilhar: “Podíamos parar de conduzir carros!” Mas pareceu-lhe uma mudança demasiado difícil de empreender.

 

Cerca de um ano depois, um colega da sua idade afogou-se quando o barco em que ele e a sua família estavam virou devido uma tempestade repentina. Para Francis, Jerry Tanner representava o paradigma de uma vida perfeita: uma esposa e crianças lindas, uma casa adorável, um belo emprego, uma vida inteira pela frente. E agora tudo tinha acabado.

 

Se o derramamento de crude foi o impulso, a morte de Tanner foi o catalisador que catapultou Francis para o caminho em direção ao seu propósito de vida e para fora da rota dos transportes motorizados pelos 22 anos seguintes.

 

Inicialmente, ele soube simplesmente que precisava de explorar o que significava não recorrer a fontes de energia derivadas do petróleo para se deslocar. Em 1983, o seu processo tinha-se consolidado com a Planetwalk, uma organização sem fins lucrativos “dedicada ao incentivo da tomada de consciência ambiental e à promoção da governação da Terra e da paz mundial através da peregrinação.” Assim que encetou esta fase da sua odisseia, Francis planeou uma peregrinação a pé e de barco de 18 anos à volta do mundo.

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Imerso Em Silêncio



É consensual que, quando alguém embarca numa trajetória de transformação pessoal, quem não estiver preparado para viajar com esse alguém – literária ou metaforicamente – passarão muitas vezes um mau bocado a tentar assimilar a sua decisão e tentarão sabotá-la. Francis descobriu, para sua surpresa e consternação, que alguns amigos e vizinhos pensavam que a sua caminhada tinha o intuito de os fazer “sentir mal” ou para lhes provar que era de algum modo superior a eles.

 

Ele cansou-se de explicar a sua escolha, e, depois de passar o seu 27.º aniversário em contemplação absoluta, os dias de silêncio tornaram-se semanas e as semanas meses. Em vez de quebrar o silêncio, estreitou o seu compromisso com ele, comunicando por mímica e notas que rabiscava.

 

A sua motivação para se tornar num “praticante da natureza” alimentou cada despertar seu, cada momento da sua caminhada. Além do feito incrível de caminhar sem falar, de enfrentar cada desafio com criatividade, teimosia e fé, durante a sua peregrinação Francis fez licenciaturas, mestrados e doutoramentos em Ciência, Estudos Ambientais e Recursos da Terra, respetivamente, de três instituições académicas.

 

Caminhar Como Forma de Arte

 

“Caminhar tornou-se numa descoberta daquilo que significa viver desta forma”, explicava Francis nos primeiros anos de peregrinação. Inverness, a comunidade perto de Point Reyes Station onde vivia à data, é pequena, rural, e muito unida. “Na altura as pessoas não trancavam as portas. Eu ia à cidade, e os meus amigos esperavam que eu aparecesse, quer estivessem em casa ou não, deixavam-me entrar, comer da comida deles, dormir a sesta, o que eu quisesse. Eu retribuía sempre, lavava a loiça ou limpava a casa de banho, e depois eles diziam: “John, onde andaste ontem? Vimos que a casa de banho estava limpa e achámos logo que devias ter sido tu.”

 

Com a viagem agora era medida em passos em vez de rotações de pneus, Francis descobriu, paradoxalmente, que tinha muito tempo nas suas mãos, visto que aquilo que levaria a percorrer dez minutos era agora traduzido numa hora de caminhada. Os seus antigos compromissos que envolviam conduzir estavam condenados.

 

Ele começou a desenhar e a aprender sozinho a tocar banjo, tornando-se um mestre em ambos. “Toda aquela caminhada era o ensaio final! Ora veja: se eu fosse a pé a algum lugar que ficava a 15 quilómetros, e eu percorresse 5 quilómetros por hora, isso dava-me 3 horas para praticar.” Ele também parava com frequência na berma da estrada para captar o cenário.

 

Mais tarde, quando iniciou a sua peregrinação, a música e a Arte converteram-se simultaneamente em fontes de rendimento e numa forma de se apresentar cortesmente. Francis era muitas vezes convidado a tocar em troca de comida ou guarida, e os seus ouvintes enchiam-lhe o chapéu “até transbordar”, como exclamou uma criança.

 

A Imensidão do Vazio

 

Enquanto ele fala apaixonadamente de peregrinar como um modo de estabelecer ligações, tenho uma epifania: falar e conduzir ao mesmo tempo. São ambos rápidos, uma maneira de soprar através da vida a uma velocidade endiabrada, perguntando: “Como é que cheguei aqui?” Com a fala, “Quando chega a algum lado, o planeta diz-lhe, ‘Estás aqui.’” O caminhar e o silêncio são deliberados; eles mantêm-nos presentes com um ritmo que escapa às palavras e aos motores.

 

“O silêncio abre espaço para a consciência… para que ouças”, diz Francis. “O vazio é tão espaçoso que assusta as pessoas. É assustador estar consigo mesmo desta maneira. Não tem a certeza do que vai descobrir, porque está num lugar onde tudo é possível. “Comunicar dá trabalho; não é fácil, não é de borla, declara. “Escutar é uma parte importantíssima desse processo.” Uma das suas primeiras coisas que descobriu com o silêncio foi quão pouco escutara os outros até então. Francis teve vergonha da sua arrogância: só tinha escutado o suficiente para determinar se estava ou não de acordo com o orador, e se não, para preparar a refutação.

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“Como Tratamos o Outro Quando o Conhecemos”

 

Francis conheceu milhares de pessoas ao longo da sua peregrinação e mantém laços estreitos com muitas delas.

 

“As relações são tão importantes para mim”, diz, “Estamos todos nestas viagens, e partilhamos pedaços delas, que de alguma forma nos apercebemos de que estamos a seguir direções distintas. Precisamos de nos lembrar de que todos caminhamos uns com os outros, o tempo todo. Podemos magoar se falarmos sem pensar. É importante ter o intuito de não magoar, perceber a maturidade espiritual de cada um tão bem quanto percebemos a nossa.”

 

Quando a sua travessia se estendeu, anos depois, para a América do Sul, Francis começou a questionar-se “quão pequeno é o mundo, em que medida somos parte dele, em que medida somos parte uns dos outros.” O conceito-base que reiterou no que toca ao nosso tempo juntos é “Como tratamos o outro quando o conhecemos. Estamos sempre a encontrar-nos. Se nos aproveitarmos de alguém, estamos apenas a aproveitar-nos de nós próprios.”

 

A Paz Enquanto Ação Ambiental

 

Questionado acerca do Prémio Nobel da Paz de 2004 Wangari Maathai’s pelo seu ativismo – foi a primeira vez que o Prémio reconheceu a ligação delicada entre a sustentabilidade ambiental e a paz mundial –, Francis concorda que esta é a maior verdade da sua vida e do trabalho também. “Quando estava a estudar para o meu Doutoramento em Recursos da Terra, houve uma coisa que me ocorreu. Não tinha só a ver com as árvores, nem com as espécies ameaçadas nem mesmo com a poluição, mas com todo o comportamento humano: como tratamos o outro quando o conhecemos. Não tem só a ver com direitos humanos e igualdade económica, por isso não tem só a ver com a intervenção ambiental.” Toda a forma de vida é sagrada e tudo está interligado. Se deitarmos abaixo o nosso vizinho com palavras, estaremos a sacrificar o ambiente exatamente da mesma maneira que se tivéssemos deitado abaixo uma árvore. Desmatar uma floresta será sempre um ato agressivo mesmo que sejamos pacíficos e amáveis o resto da vida.

 

“Então surge a questão: ‘O que é a paz?’ Se não tem a ver com o ambiente, tomar conta dos nossos recursos, direitos civis, direitos humanos, então – o que é a paz? É muito mais do que não travarmos guerras. O ambientalista Lynton Caldwell disse: ‘A crise ambiental é uma manifestação exterior de uma crise mental e espiritual.’ Está tudo interrelacionado – tudo o que fazemos, tudo o que somos”, explica Francis. Precisamos de começar a abraçar em pleno um destes modelos, Gandhi disse: ‘Sê a mudança que desejas ver no mundo.’”

 

Ser um Veículo de Mudança

 

Francis parece ser a pessoa ideal para falar de viaturas híbridas, carros elétricos e se uma solução energética global está iminente. O petróleo não se limitou a dar o mote para a sua peregrinação; o tema da sua dissertação era a avaliação do impacto dos derrames de crude nos recursos naturais, que mais tarde lhe valeu um cargo de relevo na Guarda Costeira Norte-Americana, no âmbito do qual escrevia e analisava a legislação aplicável.

 

Embora Francis não espere que todos nós comecemos a peregrinar por essa causa mais cedo ou mais tarde, ele avisa-nos que o facto de haver ainda petróleo a recuperar “não devia ser um apelo a um maior consumo de combustível, mas sim uma oportunidade para diversificar verdadeiramente o nosso consumo de energia. Precisamos de uma mudança na forma de pensar e agir no que toca às questões ambientais. Isto é muito mais do que um ajuste tecnológico. É necessária uma mudança cultural e espiritual”, diz com a convicção que advém da experiência.

 

Temos de repensar a nossa relação de dependência do uso do automóvel e criar comunidades que incentivem e promovam os transportes alternativos, para que possamos prescindir do carro. E, claro, temos de optar por transportes alternativos. Além das vantagens ambientais, caminhar e andar de bicicleta são benéficos para a saúde. Francis ainda caminha cerca de 6 quilómetros por dia, “só para se deslocar”, garante.

 

O Sentido da Peregrinação

 

A peregrinação é, por definição, uma viagem solitária. Na Índia, a peregrinação está vedada aos homens de meia-idade, assim que se tornem homens de família. Francis fez o processo contrário, casou e foi pai nos seus 50.

 

Naturalmente que não é um processo linear. Thomas Merton escreveu: “A peregrinação geográfica é o ato simbólico de uma viagem interior.” Um sapiente e maduro Francis que conheceu no princípio da sua caminhada disse que quando terminasse o seu trabalho espiritual, estaria a falar de carros e a voltaria a conduzir um, mas seria “algo diferente.”

 

“É essa a essência da viagem”, afirma Francis. “As linhas vão ficar difusas, fará viagens atrás de viagens. A minha caminhada é uma viagem dentro uma viagem maior. Quando comecei a conduzir um carro, apercebi-me de que não tinha revisto a minha decisão de não conduzir – isto veio destacar o aspeto mais importante da viagem, os objetivos que traçamos. No início, era imperativo (não conduzir); com o passar do tempo, pude sentir essa decisão esvair-se dia para dia dentro de mim – já não era uma escolha viva, vital para mim. Tive de me perguntar se a minha decisão de caminhar me estava a levar onde tinha de ir.

 

“Somos identificados com aquilo que somos e fazemos (na vida) e é difícil deixar ir as coisas, mesmo as que já não servem.” Foi o que acabou por acontecer com o compromisso de Francis de evitar qualquer meio de transporte motorizado, e isso aplica-se a todos os domínios. “Por exemplo, enquanto ambientalistas podemos dizer: “‘Bastava que os construtores vissem o que estamos a fazer!”’ Temos de nos perguntar o mesmo! Talvez tenhamos também de fazer algo diferente.”

 

Em suma: não tome os seus ideais e comportamentos como garantidos, ainda que eles parecem inabaláveis. Faça um check-in periódico para perceber se a sua conduta ainda se encaixa na sua visão e nos seus valores.

 

Planetlines: Educação Ambiental para as Gerações Vindouras

 

O próximo passo de Francis ao serviço do ambiente é desenvolver a Planetlines, um programa ao serviço do ambiente, da paz e da comunidade inspirado no conceito da peregrinação. A Planetlines irá apresentar a alunos dos ensinos secundário e universitário a ideia de “levantamento” – observar o que existe no raio de 1,5 metros, conhecer o microambiente que nos rodeia. Os alunos recolherão amostras de água para análise da turbidez e do pH, medir os níveis de precipitação, entre outras atividades que os ajudem a “sentir” o meio-ambiente, fazendo registos diários nos seus cadernos.

 

Esta pesquisa ambiental prática irá ajudá-los a perceber quão interligados os sistemas estão na rede da vida, e como, de modo similar, pequenas ações quotidianas podem gerar efeitos de longo-prazo no ambiente e nos recursos da comunidade, como explica Francis. Ao desenvolver um vínculo com o lugar onde vivem, os alunos poderão desenvolver igualmente um sentido mais apurado de como gerar uma mudança positiva na comunidade e no mundo, através das escolhas que fazem diariamente.

 

O que me fascinou mais na sua descrição foi o termo usado para representar a junção e interpretação da informação recolhida pelos estudantes num mapa: “verdade terrestre”. Ele traduz todos os dados de referência simbólicos em resultados fiáveis – bem à semelhança do que acontece com a manifestação da nossa conduta diária em verdadeiro impacto ambiental. Consigo ouvir uma expressão popular que me parece iluminada: “Dude, what’s your ground truth?” (Dude, qual é a tua verdade com mais base?)

 

Planetwalking Em Todo o Lado

 

 Como é que podemos ser Planetwalkers nos nossos próprios quintais?

 

“Caminha com o intuito de procurar oportunidades para servires a tua comunidade ou as comunidades vizinhas”, responde Francis. “Podes limpar um terreno vago, encontrar uma casa abandonada e transformá-la num refúgio para sem-abrigo, fazer voluntariado na sopa dos pobres, criar uma horta urbana, tutorar uma criança.”

 

“Como tratar o outro quando o conhecemos. É este o ponto de partida.”

 

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