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ZERO CARBON BRITAIN

Written by Paul Allen      Jan 22, 2015

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Como reduzir as emissões de carbono a zero com a tecnologia atualmente existente.

 

A história extraordinária do Homem e da energia

 

A nossa relação atual com a energia é somente o mais recente capítulo de uma longa estória iniciada com o sol. Ele converte 620 milhões de toneladas de hidrogénio em hélio por segundo e, nesse processo, liberta uma enorme quantidade de energia. Inicialmente, o planeta Terra era um solitário bloco de pedra gradualmente aquecido por esta energia radiante. Mas eis que há de 4 bilhões de anos algo incrível aconteceu. Uma reação química, que hoje conhecemos como ‘fotossíntese’, começou a converter a energia proveniente da luz solar em ‘compostos de baixo valor energético’ como o dióxido de carbono e a água para criar ‘compostos de alto valor energético’, como os açúcares, capazes de potenciar o crescimento, a locomoção ou a reprodução dos seres vivos. Ao longo dos milénios, a fotossíntese potenciou o nascimento, a vida e a morte de uma incrível evolução de plantas e criaturas, que, ao morrerem e chegarem às florestas ou ao fundo do mar, absorveram uma porção desta energia capturada (e de carbono capturado). Sob o efeito do tempo, da temperatura e da pressão, estes animais e plantas mortos tornaram-se em ‘combustíveis fósseis’ – turfa, lignite, carvão, petróleo e gás. Durante milhões e milhões de anos, este processo criou a maior, mais concentrada e mais útil reserva de energia que já alguma vez conhecemos ou iremos conhecer.

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E então chegámos

 

Durante alguns milhares de anos de civilização, o Homem desconhecia completamente a quantidade maciça de energia armazenada debaixo dos seus pés, o acesso à energia era limitado ao ‘racionamento anual de luz solar’ que coubesse a cada canto da superfície terrestre. Vivíamos à mercê das estações, auxiliados pelo machado e pelo arado, uma vez que o solo era o meio vital para converter luz solar e alimento para as nossas famílias, pondo os nossos animais a pastar e acendendo as nossas fogueiras. Tudo dependia do acesso à terra, tanto sangue foi derramado nessa luta. À medida que nos fomos inovando, começámos a usar velas para captar a energia solar proveniente do vento, ou moinhos de água para a energia das marés. Mas o total armazenado era lamentavelmente escasso, visto que as nossas ferramentas eram pouco mais do que lonas, velas, traves de madeira ou baldes.

 

O Rei Carvão

 

A descoberta do carvão tudo mudou.

Na Antiguidade, os Chineses e os Romanos certamente sabiam da sua existência mas, quando a mão-de-obra, as competências, reservas acessíveis e o poder inventivo se juntaram para uma explosão na produção no século XIX, o carvão industrial espoletou o acesso a um depósito massivo antigo de luz solar com milhões e milhões de anos. A Humanidade deixou de estar confinada às frações anuais de energia solar. Pela primeira vez na nossa História, tínhamos acesso a energia, independentemente do lugar ou da estação, sob o nosso controle direto, quando e onde quer que fosse – e podíamos enfim viver como ninguém tinha vivido até então na Terra. Deram-se mudanças enormes na agricultura, na manufatura e nos transportes em toda a Grã-Bretanha, Europa, América do Norte e inevitavelmente no resto do mundo, desencadeando um processo que viria a assinalar uma profunda viragem na sociedade, transformando quase todos os aspetos da vida quotidiana em todo o Globo.

 

Em 1859, a The Pennsylvania Rock Oil Company começou a perfurar perto de um poço de petróleo em Titusville, na Pennsylvania, e assim nasceu a era do petróleo comercial, fazendo aumentar radicalmente a velocidade à qual a humanidade podia fazer saques do seu depósito de energia. Com a invenção do motor de combustão interna, o petróleo depressa ultrapassou o carvão enquanto nossa maior fonte de energia e tornou-se na matéria-prima de muitas fábricas.

 

A ascensão do sonho dos combustíveis fósseis

 

Logo no início do século XX, o mundo ocidental abundava em combustíveis fósseis baratos. À medida que a população disparou e se industrializou, também se foi habituando a volumes imparáveis de energias fósseis baratas e de má qualidade e os nossos capitães da indústria criaram sistemas económicos assentes na assunção de que o crescimento é a norma, e isso seria vitalício e global. O carvão, o petróleo e o gás eram abundantes e a sua produção altamente rentável – por isso os nossos modos de vida e processos de trabalho eram quase literalmente concebidos para os usarem tanto quanto possível. Mas em nenhum lado esta ‘dependência desenhada’ de combustíveis fósseis foi tão marcante quanto com a invenção do automóvel. Este viria a ser a maior máquina da economia no pós-guerra, pelo que as cidades em expansão e os subúrbios eram projetados para fazer do carro não só uma conveniência, como também uma absoluta necessidade.

 

Embora a prática do ‘consumo de aparências’ já venha do antigo Egito, os combustíveis fósseis forneciam agora os meios para fazer dele um fenómeno de massas. Um dos pioneiros no uso de bens materiais para ostentar riqueza e prestígio social foi Edward Louis Bernays. Ele combinava ideias da psicologia de massas com as noções psicanalíticas do seu tio Sigmund Freud e vendia-as às companhias americanas. Ao ritmo do aumento da quantidade de combustíveis fósseis baratos disponível, poderosas normas sociais começaram a impor-se nesta sociedade de consumo emergente, sem que alguém questionasse a energia que sustentava os seus vícios.. Na realidade, sem que quase ninguém se apercebesse, os combustíveis fósseis tinham-se apoderado de quase todos os domínios das nossas vidas.

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Mais e mais depressa. Mais e mais depressa. Começámos a avançar sonambulamente para um ‘sonho dos combustíveis fósseis’, baseados na assunção errónea de que ele podia oferecer-nos quantidades cada vez maiores de energia barata. Como em nenhum outro momento da História, a energia média gasta com este estilo de vida ocidental passou despercebida e passou a ser considerada normal..As gerações que se seguiram cresceram com a ideia de que haveria sempre luz, petróleo nos barris e prateleiras cheias, e haveria cada vez mais diversão, melhores relacionamentos e maior sucesso, se comprassem mais, comessem mais, viajassem mais e gastassem mais.

 

Um sonho desfeito

 

Mas, em finais do século XX, o sonho dos combustíveis fósseis foi-se claramente desfazendo. Em pouco mais de 150 anos, cerca de metade das reservas maciças terrestres de petróleo e gás convencionais, equivalentes a centenas de milhões de anos de energia solar concentrada, tinha sido consumida por uma minoria rica.

Agora, na sequência deste consumo astronómico de energia devido ao estilo de vida ocidental, o resto do mundo também começou a reclamar o direito a usufruir de igual estilo de vida. Assim que a procura disparou em flecha, taxas globais de produção de petróleo convencional aproximaram-se do pico, ao que se seguiu uma estabilização e uma inevitável descida, com o que resta a ficar cada vez mais sujo, difícil de extrair e consideravelmente mais caro. Além disso, reconhecemos que ao o queimarmos, relançámos quantidades excessivas de dióxido de carbono armazenados pela antiga fotossíntese; levando-nos a um ponto de desencadear consequências perigosas e incontroláveis nos sistemas climáticos naturais. Se toda a gente perseguir o sonho dos combustíveis fósseis e viver como nós vivemos, iremos prejudicar os sistemas naturais que nos suportam de um modo profundo ao qual ninguém será jamais capaz de se adaptar. Deixar ficar tudo como está já não é opção, só podemos queimar somente um quinto dos combustíveis fósseis atualmente em carteira. Com o preço real dos combustíveis fósseis a aumentar e os preços das energia renovável a cair em força, há uma necessidade urgente de abrir o próximo capítulo na nossa relação com a energia – mas esse parece ser um processo moroso.

 

Empresas modernas, os seus conselhos de administração e diretores-executivos são sistematicamente instados pelo regime de comércio livre a maximizar lucros a curto prazo para os acionistas. Eles enfraquecem a legislação em torno da redução de emissões, não por malícia deliberada, mas porque, uma vez que o capital acionista tem sido delapidado com a aposta em gasodutos, minas, poços de petróleo ou refinarias, é sua obrigação maximizar o retorno desse investimento. Para piorar as coisas, a cotação das empresas de petróleo e gás são, por seu turno, altas, porque os seus investidores se baseiam na premissa de que essas reservas são indestrutíveis. Como as companhias energéticas são muito rentáveis e com volumes de negócios altíssimos, os lobbies altamente qualificados podem deplorar vastos recursos para fazerem o seu sonho durar mais um pouco.

 

Estamos a entrar genuinamente num novo terreno

 

À medida que somos cada vez mais a juntar-nos a este cenário alarmante, a violação coletiva do nosso sistema de suporte de vida planetário torna-se numa das mais profundas e omnipresentes fontes de ansiedade do nosso tempo. O consenso alargado em torno do nosso saber está claramente a indicar o caminho a seguir, e nós temos as tecnologias que isto requer – mas os nossos interesses adquiridos arrastam-nos quase em direções opostas. Vemo-lo, sabemo-lo, apercebemo-nos das consequências, mas tornamo-nos mais fracos. A sociedade criou tabus contra a opinião pública com tanto fulgor e tanta angústia que se tornou culturalmente aceitável assistir a tudo de forma passiva. Passamos rapidamente e de modo sonâmbulo pelos centros comerciais, distraídos, paralisados e sobrecarregados de um contínuo bombardeamento de informação. Pomos esse conhecimento de lado, no mesmo lugar onde os fumadores guardam tudo o que sabem sobre cancro pulmonar, e debruçamo-nos sobre os desafios imediatos do dia-a-dia. Ainda que não lidemos com essas sensações, elas manifestam-se na nossa condição física e mental. Ao longo das últimas décadas, esse medo coletivo e esse enfraquecimento transformaram a nossa forma de pensar acerca do futuro; de um excitante mundo de progresso e êxtase que foi a década de 50 – para um mundo de medo escuro e incerto. De cada vez que a nossa cultura contemporânea recua uma ou duas décadas, pinta o colapso ecológico e uma distopia regida por zombies. Seja uma novela, uma peça de teatro, um filme, uma série televisiva ou um jogo de computador, o cenário é sempre escuro. De Perigo Iminente a A Estrada, de 28 Dias Depois a WWZ Guerra Mundial – a lista parece interminável, e toda uma nova geração está a crescer com essa visão. Se não formos capazes de imaginar um futuro positivo, não o iremos criar.

 

Transformando a aflição em poder

 

É claramente a altura de repensar o futuro, reduzindo as emissões suficientemente depressa para prevenir os problemas graves. O projeto Zero Carbon Britain foi desenvolvido com o intuito de fornecer informação de peso e a confiança necessárias a uma visualização do que um futuro com zero de emissões poderia ser. Estabelecendo uma abordagem inteligente à produção e aos regimes alimentares, infraestruturas, transportes, uso da energia ou da terra e sustentados por informação real do estado do tempo controlada ao segundo, podemos verificar que já não estamos limitados ao solo, a lonas e traves de madeira – agora temos um leque incrível de tecnologias ultramodernas capaz de recolher energia renovável suficiente para colmatar as nossas necessidades.

 

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O modelo da Zero Carbon Britain

 

A solução apresentada pela Zero Carbon Britain (ZCB) demonstra que é possível reduzir rapidamente a emissão de gases com efeito de estufa (GEE) para valores nulos em 2030, recorrendo apenas à tecnologia atualmente existente. ‘Cortar’ os nossos gastos energéticos em 60%, e ‘ligar’ os nossos recursos energéticos renováveis alternativos aos combustíveis fósseis e introduzir mudanças nos nossos hábitos agrícolas e alimentares conduziria a uma redução das atuais emissões de GEE no Reino Unido na ordem dos 94%. Podíamos compensar os restantes 6% derivados de processos não-energéticos (como produção de cimento ou metano através da pecuária) removendo os gases com efeito de estufa da atmosfera mediante a recolha de carbono das florestas e turfas reflorestadas. Isso levar-nos-ia sobretudo a uma anulação completa das emissões.

 

Desligar

A pesquisa desenvolvida pela ZCB demonstra que podíamos reduzir o nosso uso de energia em cerca de 60%, com diminuições particularmente consideráveis no aquecimento de edifícios e nos transportes.

• Edifícios: ter elevados padrões de poupança característicos das ‘Casas Passivas’ em novos edifícios, adaptar os já existentes e melhorar o controlo térmico interior levaria a uma diminuição do dispêndio de energia para aquecimento para cerca de metade.

• Transportes: viajar menos de transportes motorizados, e repensar a forma como nos deslocamos – andando mais a pé, de bicicleta, transporte público, optando por veículos elétricos e viajando menos dois terços de avião – reduziria o nosso dispêndio de energia para deslocações em 78%.

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Ligar

É possível preencher as necessidades energéticas no Reino Unido recorrendo exclusivamente a fontes de energia renováveis e sem carbono (sem combustíveis fósseis ou energia nuclear). Na proposta da ZCB, muitas fontes de energia renováveis adequadas ao Reino Unido – solar, geotérmica, hídrica, das marés e outras – são utilizadas para produzir luz e calor.

• Energia Eólica: no litoral e no interior – desempenha um papel central, fornecendo quase metade da energia disponível.

• Grande parte da energia nesta solução apresentada pela ZCB (cerca de 60%) é produzida na forma de eletricidade.

• Combustíveis sintéticos sem carbono desempenham um papel importante onde não é possível utilizar eletricidade – por exemplo, em algumas áreas da indústria e dos transportes – e como uma espécie de Plano B do nosso sistema energético.

 

Equilibrando necessidades e gastos

A questão central de um Sistema energético 100% renovável não é se conseguimos produzir energia suficiente, mas se conseguimos produzir energia de forma constante – mesmo na ausência de vento, de sol ou quando há um dispêndio elevado de energia. Na proposta da ZCB, um controlo feito de hora em hora do conjunto das renováveis prevê um excedente energético 82% do tempo. Asseguramos o fornecimento de energia no período restante. Como?

• Mudando o padrão de procura, usando aparelhos ‘inteligentes’ e baterias, armazenamento por bombagem e de calor e hidrogénio para armazenamento de energia a curto-prazo por horas ou dias.

• Usando gás sintético sem carbono, que pode ser entregue com rapidez sempre que necessário para armazenamento a longo-prazo durante meses ou anos.

 

O modelo energético horário da ZCB

 

O modelo energético da ZCB é um dos mais detalhados estudos sobre o equilíbrio entre a procura e a oferta num sistema energético 100% renovável jamais feitos. Ele recorre a dados meteorológicos recolhidos hora a hora (luz solar, velocidade do vento, temperaturas, etc.) ao longo de 10 anos – entre 2002 e 2012 – num total de 88 mil horas – para testar o conjunto do uso das energias renováveis em contexto real. Esta pesquisa sugere que a energia ‘de base’, a que fornece continuamente eletricidade e que só consegue reagir a longo-prazo (a energia nuclear, por exemplo), não funciona bem num sistema energético muito instável, e leva a uma sobreprodução sempre que as renováveis também vão de encontro à procura existente.

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Mudança cultural

 

As alterações climáticas que estão a ocorrer no Reino Unido não irão impedir aquela que é já considerada uma mudança climática altamente perigosa. Por contraste, o modelo da ZCB demonstra que podíamos rapidamente reduzir as emissões de CO2 naquele país a zero em 2030, recorrendo apenas à tecnologia existente. Porém, uma tal transição permanece além dos limites do que é hoje ‘politicamente exequível’ e torna-se por isso num desafio tão grande para a nossa democracia e cultura quanto para a nossa tecnologia. A Ciência ensina-nos coisas, mas é a Arte que nos ajuda a navegar em águas mais profundas. A prática criativa mostrou-nos como se pode derrubar o preconceito, a apatia, pressões económicas e obstáculos para catalisar uma transformação na cultura, nas atitudes e nos comportamentos. Ao longo de algumas décadas, a criatividade transformou radicalmente atitudes cristalizadas face ao género, à raça, à religião, à classe, aos fumadores, à saúde e à segurança, à exploração e à igualdade.Temos de combinar Arte e Ciência para fornecer um espelho urgentemente necessário que pode trazer à tona o sonho dos combustíveis fósseis dos anos 50 que se infiltra serenamente nos subconscientes de todos a um nível global e criar espaços, reais e virtuais, onde a inspiração, o otimismo e a possibilidade de uma mudança positiva possam ser nutridos e explorados.

 

Assim que uma mudança cultural for estimulada, as molduras legais, políticas e administrativas seguirão o exemplo. Juntos podemos pintar um mural no elefante invisível que atravessa os centros comerciais. Mais do que tocar um confortante piano num bar do Titanic, a nossa criatividade pode estabelecer elos entre aqueles faróis de um futuro positivo que vemos estampado aqui e agora. À medida que formos transformando a nossa cultura, a tecnologia e o nosso estilo de vida começarão a olhar para o próximo capítulo da extraordinária história dos seres humanos e da energia, ao abraçarmos aquilo que seria viver num mundo e amar um mundo onde enfrentaríamos os nossos desafios globais – e no processo descobrirmos um sentido de propósito comum que desejamos há muito, muito tempo.

 

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